Saber se colocar
Encontrar nosso devido lugar é uma arte que transcende as noções de espaço, tempo e movimento: temos de compreender também o propósito de estar ali
por Eugênio Mussak | fotos Kiko Ferrite
Lembro-me que, ainda pequeno, costumava viajar com minha família até Buenos Aires, onde meu pai tinha assuntos comerciais e minhas irmãs estudavam em colégio interno (na década de 50, a capital argentina era referência para o sul do Brasil). Ficávamos hospedados no Hotel Plaza. No saguão, havia um pequeno lago com peixes coloridos nadando entre pedras e plantas. Aquele movimento suave e ágil dos peixinhos exercia um poder hipnótico em mim.
Costumava passar muito tempo apreciando esse espaço submerso, limitado a um pequeno tanque, e invejando a liberdade dos pequenos animais "flutuando" em um meio plástico que era deliciosamente atraente. E, é claro, um dia acabei fazendo o que todo moleque deseja fazer: coloquei a mão lá dentro e consegui agarrar um peixinho. Com toda coragem, trouxe o pequeno ser para fora d'água e fiquei, por alguns instantes, observando seu desespero e sentindo seus movimentos frenéticos em minha mão apertada.
Felizmente fui repreendido por alguém, provavelmente um funcionário do hotel, que, em seguida, teve a grandeza de estimular minha mente infantil sobre a seguinte questão: "O lugar do peixe é aquele pequeno lago, que ele imagina ser o seu mundo, seu universo. Então, uma imensa garra vinda do mundo exterior o aprisiona e o leva para fora do seu meio, no qual ele nem sequer consegue respirar. Como você se sentiria se, de repente, uma imensa mão estranha surgisse do nada e o transportasse para um local onde você nem pudesse respirar, sem entender o que está acontecendo?" E o protetor da fauna aquática foi mais longe: "Cada ser vivente tem o seu lugar para viver, ou para estar. O do peixe é o lago, o meu é fora dele. Qualquer inversão vai resultar em catástrofe para alguém".
Aprendi, então, que um lugar existe, sim, para cada um dos seres viventes. Embora depois tivesse de acrescentar que, dentro de determinadas condições, de acordo com o momento, esse lugar varia.
Tempo e lugar são informações que se complementam. A equação perfeita entre essas duas variáveis é a que resultará no que chamamos "bem-estar". Estar no lugar certo, na hora certa, pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma empreitada. E algumas pessoas têm, naturalmente, uma percepção maior sobre esse binômio, conseguindo se posicionar no mundo com bem mais qualidade.
Primeiro veio o conceito do timing, palavra inglesa que deriva de time (tempo), e que tem o significado de "senso de oportunidade", com relação à escolha do momento certo para realizar uma ação, ou à duração mais adequada para essa mesma ação. Uma pessoa com timing reconhece o instante em que deve falar e em que deve calar. Constrói suas frases e apresenta suas idéias de tal forma que o tempo utilizado por sua fala não é menor do que o necessário para o entendimento, e jamais ultrapassa o limite do incômodo ou do enfado. Uma pessoa que também sabe, precisamente, a que horas chegar e a que horas retirar-se.
O valor do timing
Pessoas com timing são mais agradáveis. Seus chistes são breves, mas sempre engraçados, porque surgem nos momentos adequados, quando o clima está pronto. Atores respeitados são os que conhecem o timing do palco, que sabem quando a vez é do coadjuvante - ou do silêncio. O comandante do avião realiza as aterrissagens mais suaves quando conhece o timing do encontro do trem de pouso com o asfalto da pista. O vendedor competente conhece o timing do fechamento do negócio, quando o cliente tem todas as suas dúvidas esclarecidas e já está emocionalmente envolvido com a idéia da compra. Para tudo há um timing e, por isso, não devemos menosprezá-lo: ele pode representar o sucesso ou o fracasso das nossas ações.
E eis que surge agora o conceito do placing, como um neologismo que deriva de place (lugar), e que teria o mesmo significado de timing, só que com relação ao espaço físico. Se compreender o momento é vital para a didática e para a elegância, compreender o local é vantagem para quem o ocupa. Hora e local: nada mais lógico. Entender o local significa posicionar-se no mundo respeitando limites, mas impondo direitos. Significa reconhecer que a visibilidade é fundamental, mas a invisibilidade também é, pois enquanto aquela produz respeito, esta produz lembrança: ambos os sentimentos reforçam nosso significado e nosso valor.
Posicionar-se de maneira adequada é uma vantagem competitiva durante uma dinâmica de grupo para selecionar um candidato a emprego. É a garantia de equilíbrio do surfista em cima da prancha, quando a onda o projeta para baixo. É a certeza de que o cavalo sabe que o cavaleiro é quem comanda, ou a convicção do atacante de que pode receber a bola e fazer o gol. É a segurança do caçador que não quer virar caça. É a felicidade do bebê quando reconhece o regaço materno. É o momento experimentado pelo enamorado quando é percebido pela pessoa que deseja.
Sou ou estou?
Em suma, o mundo tem milhões de quilômetros quadrados, mas existe um metro quadrado que é o mais adequado para ser ocupado por mim neste exato momento. Reconhecer esse metro quadrado, assim como a hora certa de estar nele, é mais do que lógica: é arte da percepção, da sensibilidade.
A língua portuguesa é pródiga ao permitir que tenhamos um verbo para definir nossa condição humana e outro para identificar onde estamos. Porque ser e estar são diferentes, mas complementares. Esse binômio lusofônico permitiu, por exemplo, ao nosso Monteiro Lobato, em sua obra Urupês, em 1918, contar a história do caipira Jeca Tatu e dizer sobre ele: "Jeca não é doente, ele apenas está doente".
Já os anglofônicos, mais práticos, só têm o to be, que tanto significa ser como estar. Aos que dominam a língua de Shakespeare, está claro que onde estamos não é diferente de o que somos. Já a vantagem do nosso binômio é deixar claro que sempre podemos melhorar o que somos, através de correções do onde e de como estamos.
Aliás, existe uma diferença importante entre onde estamos e como estamos, apesar de haver também a tal relação de complementaridade. Onde estamos diz respeito à nossa posição (espacial). E como estamos diz respeito à nossa postura (comportamental). Cavalheiros e malandros, estadistas e ditadores, intelectuais e simplórios, beatas e devassas: todos são reconhecidos por todos, porque simplesmente ocupam seus devidos lugares e têm posturas que os denunciam.
Atrás da tartaruga
Os conceitos de tempo, de espaço e de movimento preocupam o homem desde antes do surgimento da ciência. O grego Zenão de Eléia (488-430 a.C.), por exemplo, nos deixou uma frase que envolve os três conceitos e denuncia suas inter-relações. Disse ele: "O que se move sempre está no mesmo agora". O movimento determina o espaço ocu-pado por alguém em um determinado intervalo de tempo. Coordenar esse movimento, definir o timing e ocupar o espaço são atributos naturais, porém nem sempre adequados.
Conta Zenão, em uma história que passou a ser compreendida como Para-doxo de Zenão, que se houver uma disputa entre um corredor e uma tarta-ruga, e se ambos partirem ao mesmo tempo, mas tendo a tartaruga uma dis-tância de vantagem, ela nunca será alcan-çada pelo corredor. A lógica é que para que o corredor alcance a tartaruga, deve-rá percorrer a distância que os separava no início da corrida. Mas quando isso acontecer, a tartaruga já estará em outro lugar e quando a nova distância for percorrida, a tartaruga, ainda que lenta-mente, já terá se deslocado, criando um novo espaço. Essa equação seria, então, repetida ad infinitum, o que faz com que o corredor jamais alcance a tartaruga.
É evidente que os argumentos provocativos de Zenão não correspondem à realidade. Mas, na vida prática, encontramos algumas pessoas que parecem mesmo estar sempre procurando o seu espaço e, como o determinam pela posição de outras pessoas, acabam por jamais alcançá-lo. São pessoas que obedecem ao Paradoxo de Zenão e que se sentem como se estivessem sempre no lugar errado. Sua dificuldade com o estar está totalmente ligada à questão do ser.
O físico inglês Isaac Newton (1642-1727) nos explicou que "matéria atrai matéria" e que isso acontece obede-cendo a duas variáveis: a massa e a distância. Quanto maior a massa (o que costumamos chamar de peso) e quanto menor a distância, maior será a atração, e os corpos mudarão de lugar. Na verdade, a maçã de Newton não "caiu", ela foi "atraída" pela Terra, da mesma forma como ela também atraiu essa - só que a Terra é bem maior e, por isso, temos a impressão de que foi só ela que atraiu a maçã.
A quinta dimensão
As pessoas também são assim. São "atraídas" por determinados lugares. Existe algum "campo magnético" que nos mobiliza e nos coloca em nossos devidos lugares. A qualidade dessa atração, de ordem anímica, nos dará - ou não - um posicionamento que também nos fará felizes. "Entender" o lugar, o meu devido lugar, é o grande mistério, mas está claro que algumas pessoas dominam essa arte melhor que outras. A natureza, a sociedade, a identidade pessoal são todos fenômenos coadjuvantes dessa determinação, mas manter o controle, vencendo o determinismo, é uma missão possível. Nesse sentido, o aumento de nossa percepção é fundamental.
E perceber é muito mais que entender: é absorver os estímulos ambientais, selecioná-los, organizá-los e interpretá-los. E, na seqüência, responder a eles. Assim, perceber a melhor posição e a melhor postura são os pré-requisitos da boa leitura que o mundo fará de nós. Mas, para tanto, temos de aprender a ler o mundo. E também obedecer às "forças magnéticas" adequadas.
O físico alemão Albert Einstein (1879-1955) nos explicou que o mundo em que vivemos é tetradimensional: largura, comprimento, profundidade e tempo. Eis uma boa oportunidade para um exemplo trivial.
Se eu digo para alguém me encontrar em um prédio que está na esquina das alamedas Haddock Lobo e Santos, muito conhecidas na capital paulista, estarei dando apenas duas coordenadas. Se eu disser que estarei no décimo andar, estarei sendo mais preciso. Falta apenas informar que a reunião será às três horas da tarde. Pronto, essa pessoa já sabe onde me encontrar. Isso é tudo? Não, falta uma informação: por quê?
Sempre há um porquê. Antes de Einstein o mundo lidava com três dimensões apenas. Aprendemos com o físico alemão que o tempo é a quarta. Com relação ao nosso devido lugar, no tempo considerado, há ainda essa quinta dimensão muito importante, a do propósito, e talvez também outras dimensões. Algumas leis que nos regem ainda são misteriosas, mas o irrequieto espírito humano não se cansa de procurar compreender. E o fará, certamente. No lugar certo, na hora certa, e com a devida razão.
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