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Foi durante uma aula do colegial que a ficha caiu. O professor de física estava explicando as leis de Newton e, quando chegou à terceira lei, provocou em mim uma reflexão que me acompanha até hoje - e que cada vez menos tem a ver com a física. A terceira lei de Newton, também conhecida como Lei da Ação e Reação diz: "Se um corpo A aplica uma força sobre um corpo B, esse corpo aplicará simultaneamente uma força de igual intensidade e direção, mas no sentido contrário, sobre o corpo A".
Ora, se a ciência afirma e prova que, do ponto de vista físico, nenhuma ação fica sem uma reação, uma resposta, o mesmo pode acontecer em outras situações, especialmente aquelas provocadas deliberadamente pelo ser humano. Você já deve ter escutado frases do tipo: "tudo o que sobe desce", "o que vai vem", "aqui se faz, aqui se paga", "assim como plantares, assim colherás". São alguns exemplos da sabedoria popular que expressam essa lei da ação e reação, porém direcionados à vida cotidiana das pessoas.
Mas o ser humano ainda tem uma imensa dificuldade de perceber sua conexão com o mundo, de estabelecer uma relação entre as causas e os efeitos. Chega até a achar que não existe uma relação tão íntima entre ambos. Acredite: a dita lei pode ser percebida influenciando as relações humanas, a política, a ecologia, as religiões, enfim, é uma lei que ajuda a explicar a vida.
Spitz denomina essa relação de diálogo e diz: "O diálogo é o ciclo da seqüência ação-reação dentro das relações mãe-bebê. E é esse ciclo que permite ao bebê transformar, pouco a pouco, os estímulos sem significados em sinais significativos". Então, para o bebê, o mundo e ele mesmo começam a fazer sentido. Os pais são os agentes que provocam, com seus atos, a resposta dos filhos. Mas o inverso também é verdade: os filhos causam reações dos pais. E o resto da vida será uma repetição desse diálogo. Portanto, quanto maior for a percepção de que o diálogo é responsável por nossa relação com o mundo, maior o nível de maturidade.
De acordo com o sociólogo, as inúmeras ações humanas que acontecem a todo instante provocam reações em igual número. E essa trama vai interferindo, mudando, melhorando ou piorando o que poderíamos chamar de tecido social - ou, simplesmente, sociedade. Assim como o bebê, a humanidade precisa se dar conta do significado de seus atos para construir sua própria identidade e evoluir.
No Ocidente a maioria das pessoas entende o karma como uma espécie de fatalidade, uma força do destino que surge do nosso passado. Corretamente entendido, o karma não é uma desculpa para a aceitação das coisas tais como estão, mas um incentivo para aproveitar o presente da forma mais criativa e positiva possível, em que toda experiência pode se converter em crescimento e maior consciência das ações.
Vimos que a psicologia, a física e até a filosofia oriental se debruçam com atenção sobre o assunto. Mas não precisamos de teorias para perceber que estamos constantemente fazendo trocas. Basta observar sua própria vida e o mundo à sua volta. Veja um exemplo retirado do mundo da arte: dois consagrados pintores modernos, Pablo Picasso e Henri Matisse, evoluíram sua arte através de uma "conversa" entre suas obras, em um típico processo de ação e reação. Tudo começou quando, em 1905, Matisse pintou um quadro a que chamou Le Bonheur de Vivre. Picasso sentiu-se afetado e estimulado pela obra e respondeu com outra, a Demoiselles d'Avignon, que é tida como sua primeira pintura cubista. A tréplica de Matisse veio com a radical L'Atelier Rouge, dando continuidade às provocações artísticas, em que cada quadro buscava criar uma nova linguagem, como que aguardando a resposta.
Consta que essa relação entre os dois gênios continuou até a década de 40 e foi responsável por uma evolução espetacular da arte de ambos. Além de agradar ao público, eles tinham uma ação particular que provocava uma reação correspondente, em um diálogo contínuo, provocador, singular e belo.
Episódios equivalentes ocorrem em todas as áreas. Lembro-me de uma entrevista em um canal de esportes, da qual participavam as campeãs de basquete Hortência e Paula. As duas deixaram claro que, quando jogavam, em times opostos ou juntas na Seleção Brasileira, dependiam uma da outra, mas não apenas dos passes, e sim da própria performance individual de cada uma. Uma cesta espetacular da Hortência "provocava" Paula a outra cesta espetacular, e vice-versa, em um crescendo que parecia não ter fim, como no caso dos artistas. Aliás, algumas cestas foram verdadeiras pinturas.
E o pior é que há grande chance de que, na reação, seja mantida a essência, mas se aumente a intensidade. Um episódio curioso, ocorrido em Curitiba na década de 60, entrou para a história e até virou filme, com o nome A Guerra do Pente. Em uma praça de comércio popular, um freguês comprou um pente e foi, por algum motivo, mal atendido. Essa foi a ação. Agora veja a reação: o freguês queixou-se do mau atendimento em altos brados, o que provocou solidariedade de outros clientes, que começaram a ofender o comerciante e estenderam as ofensas aos comerciantes vizinhos. No final, toda a praça foi depredada pela população, em uma verdadeira guerra que não deixou uma loja ou banca de camelô inteira, exigindo a intervenção da polícia e dos bombeiros. Ódio gera ódio, só que maior.
Já o amor... Ah, o amor. Esse também, para nossa felicidade, é especialista em provocar reações proporcionais. Foi na mesma Curitiba que uma médica pediatra, de nome Zilda Arns, ao perceber que as doenças das crianças que chegavam ao seu ambulatório tinham menos relação com a medicina e mais com a fome ou os maus-tratos, iniciou uma campanha social, pequena, individual, para arrecadar fundos e melhorar a vida dos pequenos de uma comunidade. Essa ação pessoal, iniciada há 20 anos, transformou-se no melhor exemplo de reação social, com o nome Campanha da Solidariedade, e atende hoje, em todo o Brasil, milhões de crianças pobres com suplementos alimentares e orientações às mães. Amor também gera amor. É uma questão de escolha.
Na hora de decidir ou na hora de agir, na maioria das vezes é difícil saber o que é certo ou errado - se é que existem categorias tão absolutas. Mas uma coisa é fato: certa ou errada, a ação desencadeará uma reação. Basta arcar com a conseqüência. É a lei.
Eugênio Mussak é educador e escritor. Suas ações podem ser vistas em seu site: www.eugeniomussak.com.br Sua foto, na página 26 (quinta foto da primeira coluna)
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