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Comer comendo

Prestar atenção ao que se mastiga faz bem à saúde e ainda alimenta o espírito

por Liane Alves | foto Manuel Nogueira

Responda depressa: você janta assistindo ao Jornal Nacional? Toma café da manhã de pé porque vive com pressa? Não consegue nem lembrar o que comeu no almoço de ontem? Se você disse sim, confesso: somos dois. Na maior parte das refeições, não consigo comer comendo, isto é, saboreando o alimento com gosto e atenção. Ou mergulho em pensamentos ou me disperso com conversas, música e televisão. Ao comer perco completamente a atenção no momento presente, que tanto saboreio no resto do dia. É meu calcanhar-de-aquiles espiritual.

Não é falta de bons exemplos. Fui casada (anos e anos) com um chef e descendo de uma família de hoteleiros europeus. Portanto, mesa, em casa, era sempre com arranjo de flor, toalha combinando com a porcelana, copos de cristal. E com pratos de dar água na boca. Porém, se deixar só por minha conta, estando eu sozinha e sem compromisso, prefiro mil vezes o popular misto quente com picles na frente da tevê - pura preguiça de quem se habituou a mordomias.

Mas se você, como eu, também não se liga na hora de comer, sou obrigada a compartilhar uma constatação: alimentar-se assim não é bom. Quem come sem perceber o que manda para o estômago acaba engolindo mais do que precisa, não mastiga direito os alimentos e tem mais dificuldade para digerir. Assim, mais pela saúde e paz de espírito, decidi procurar uma maneira de me alimentar com mais atenção - que não exigisse pratos elaborados. E fui procurar quem entende do assunto.

Não mude nada
Esse é o primeiro conselho de Alicia Negri, professora de orioki (a arte de comer meditando) do grupo de meditação Shambhala, de São Paulo. Espera lá, meditação? O que tem isso a ver com comer? Bom, meditar tem a ver com qualquer coisa. Meditar, é bom lembrar, não é sentar-se em posição de lótus com os olhos fechados. Isso é só uma técnica. Meditação é um exercício de atenção plena, é estar consciente a cada bocado da vida (inclusive à mesa), sentindo o corpo e o ambiente ao redor, sem se perder em pensamentos. Corpo e espírito saem alimentados desse exercício, como já comprovou a ciência (meditar adiciona ao sangue uma pitada de substâncias que causam bem-estar, diminui a dose de hormônios do estresse, engrossa o caldo do sistema imunológico, fermenta a concentração e mais um monte de coisas).

No primeiro contato, Alicia, que é mestre-cuca em meditação, me pede para não modificar nenhum hábito. Sugere apenas que eu traga mais consciência e atenção para tudo o que fizer durante a refeição. Só isso. Quando ouço suas palavras, estremeço. Pressinto que meus dias de saborosa inconsciência diante da tevê estão contados.

Tento seguir sua receita já no dia seguinte, na hora do almoço. Ligo as antenas e percebo que, quando começo a pôr a mesa, todo o meu ser pede mais simetria nos arranjos de copos, pratos e talheres. Atenção e descuido decididamente não vivem em comum. O curioso é que o desejo de arrumar a mesa vem de dentro, não é fruto de uma imposição qualquer, seja do marido, da família ou da sociedade. É quase instintivo. Vejo também que acompanho os movimentos das minhas mãos, que fico mais atenta às sensações do meu corpo. É como se estivesse me vendo colocar a mesa de um ponto fora de mim. Extraordinário. A atenção continua me pedindo mais beleza e simetria. Começo a imaginar até a possibilidade de arranjar uma flor para colocar num vasinho.

Dou um pulo no jardim, colho um maço de manjericão e hortelã e faço um arranjo. Toalha e pratos brancos, folhas verdes. E não é só. De repente lá estou eu a procurar guardanapos com detalhes verdes para combinar com o resto. Quem diria. A atenção faz brotar dentro de mim um desejo de harmonia. Alicia tinha razão. Não é preciso fazer nada intencionalmente. A atenção, sozinha, inspira tudo o que precisa ser feito.

Ouça a comida
"Comer inclui todos os sentidos e não só o gosto", afirma Alicia na segunda vez que nos falamos pelo telefone. Ela me diz que gosta de colocar alimentos crocantes aqui e ali na refeição (amêndoas ou amendoins torrados, maçãs verdes, salsão e até batatas chips) para despertar os ouvidos para a audição interna. Comecei a prestar atenção no "crunch-crunch" da erva-doce da salada, no barulhinho da granola no café da manhã, no croque da primeira mordida no pão fresquinho. Lembrei que antigamente, no Japão, os mestres de meditação tinham a audição desperta até para o som que o papel faz ao se virar uma página de livro ou para a diferença do barulho dos seus passos em diversos tipos de chão.

Quase por encanto, ao observar minha audição, os outros sentidos também despertam. Uma coisa puxa outra. Percebi, por exemplo, que gosto muito mais do cheiro do café que do café, do cheiro da pipoca que da pipoca. Notei também que preciso ver muitas cores nos alimentos porque, do contrário, sinto que não estou me nutrindo de algo fundamental. E é exatamente das cores, me diz Alicia. "Alimentamos-nos delas, tanto quando da comida", afirma. Indianos e chineses, por exemplo, pedem no prato a presença de cinco cores (amarelo, verde, vermelho, preto e branco) e cinco sabores (amargo, azedo, doce, salgado e picante). A variedade é um estímulo a mais para se manter a atenção desperta. A rotina, um convite ao entorpecimento. Se for difícil ter todas as cores e sabores numa refeição, é possível aprender a desfrutar daquelas que estão presentes naquele momento.

Um último detalhe: estar mais consciente durante as refeições com certeza também vai modificar seu gosto com relação à qualidade dos materiais de copos e talheres. Com a atenção alerta, o que é grosseiro, feio e malfeito passa a incomodar muito. E vamos admitir: quem não se arrepia com o ruído da faca cortando um bife num prato de vidro?

Comendo impressões
O mestre armênio Georges Gurdjieff (1866-1949) dizia que nos nutrimos de três alimentos principais: comida, ar e impressões. Isso mesmo: impressões, aquilo que nos chega por meio dos sentidos. Ele também afirmava que podemos ficar um tempo sem comida e alguns minutos sem ar, mas nem um único segundo sem impressões. Elas estão constantemente nos alimentando. Isto é, segundo Gurdjieff, ao dar sua garfada de arroz com feijão diante da tevê vendo as cenas da guerra do Iraque, você engole junto todas as impressões - e emoções negativas - que você associa à guerra do Iraque. Salgado, não?

Tenho certeza de que meu melhor amigo não sabe disso. Ele é médico e não tem o mínimo escrúpulo em detalhar sua última cirurgia à mesa, não importando se o prato principal é galinha ao molho pardo. Também já ouvi de um namorado várias descrições de suas brigas com a ex-mulher durante a entrada que acabavam em sentidos soluços na sobremesa (e às vezes eu havia gasto horas fazendo o jantar...). Tem gente que não vê relação entre o que está dizendo ou ouvindo com aquilo que está comendo, como se estivesse completamente desconectada do momento presente. Aliás, como se estivesse não, está mesmo.

Até eu, que sou aquele horror que vocês já sabem, levanto para desligar o telejornal se o assunto pesa. O problema é que sempre pesa. Com atenção afiada, então, fica impossível. Notícias, portanto, só antes do jantar ou às 10 da noite, depois da digestão. Ou, melhor ainda, no dia seguinte.

Outra modificação fundamental: com atenção, a gente senta direitinho, com postura correta, mesmo se não houver ninguém olhando (você já deve estar se arrumando na cadeira). Percebo encantada que a elegância chega junto com a atenção, é seu efeito colateral principal. E ninguém precisa mandar ou ensinar. Estética e porte são seus derivados naturais.

Depois de falar pela última vez com Alicia e ela me dizer que meditar é apenas prestar atenção plena a algo, me veio uma cena do filme Corrida do Ouro, com Carlitos. Faminto e ilhado pela neve no alto de uma montanha, ele é obrigado a comer a única coisa que restava para mastigar por ali: uma velha botina. Mas com que elegância Carlitos põe a mesa, arruma os pratos e come aquela botina, com que graça lambe seus cadarços, com que delicadeza corta sua sola em pedacinhos... Poderia jurar que ele estava meditando, sem nenhum outro pensamento na mente a não ser desfrutar com toda atenção daquela delícia. Pensando bem, sim, é possível comer meditando com misto quente e picles.

Receita antiga
Para alimentar mais de 300 monges ao mesmo tempo, é preciso calma, muita calma.

Foi o que Buda percebeu há 2.500 anos, quando viu seus discípulos entornando tigelinhas de sopa no chão ou marinando com curry as vestes do vizinho durante as refeições. Buda tirou então do forno mais de 250 regras para a vida monástica, 81 só para a hora do comida. Todas para ajudar os monges a continuar seu estado meditativo durante o comer, o vestir, o caminhar. Todas fermentando a atenção. Séculos mais tarde, nos mosteiros zen-budistas do Japão, organizou-se uma maneira ainda mais precisa de se comer meditando: o ooryooky (ou, mais simplesmente, orioki), palavra japonesa que quer dizer "tigela". Nessa arte de comer meditando, cada monge tem sua própria trouxinha de pano, onde são guardadas três tigelas, uma colher de pau, os tradicionais palitos para comer - chamados de hashi -, guardanapos e uma haste de madeira com um paninho na ponta usada para limpar as tigelinhas depois de cada refeição. Durante o orioki, todos os presentes abrem sua trouxinha, dobram guardanapos e colocam tigelas à sua frente ao mesmo tempo. É uma verdadeira dança. Há elegância tanto em quem serve a comida como nos gestos e inúmeros detalhes a serem seguidos por quem come. No final, o resto da comida é depositado, junto com água fervente, numa das tigelinhas e depois é bebido.

O orioki é tão elegante que, no final, ninguém precisa lavar a louça.

Para saber mais
• Brasil, 500 Anos de Sabor, Eda Romio, ER Comunicações
• Livro dos Alimentos, Paulo Eiró Gonsalves, MG Editores

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