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Passou mais de um ano até que Eduardo percebesse. O jeito como ele desfez seu casamento foi igualzinho ao do seu pai quando se separou da sua mãe: largando tudo, o dinheiro, o apartamento, o emprego. Seu Oswaldo havia ido para a França, Eduardo foi para a praia. Aí ele percebeu que sua relação de mais de sete anos havia sido igualzinha, sem tirar nem pôr, à história dos pais. "Eu estava seguindo um script que dizia como eu devia me relacionar comigo mesmo, com os outros e até com Deus", afirma. Eduardo descobriu que, embora pensasse que já era adulto e dono de sua vontade, ele, aos 31 anos, não tinha sequer começado a escrever sua própria vida.
Parece triste, mas a história do Eduardo não é nem pior nem melhor que a de todos nós. Ninguém nasce como carro novo, pronto para usar. Pelo contrário, viemos ao mundo à mercê da sorte e, até termos consciência de quem somos, emprestamos modelos dos pais e das pessoas de quem mais gostamos, uma herança que eles também receberam de alguém e que, de tão infiltrada em nosso modo de ser e de pensar, nunca será totalmente desenterrada e reconhecida. E acredite: isso é a coisa mais natural e saudável do mundo. Se você está vivo e é capaz de segurar e ler esta revista, deve isso a muita gente, a começar pelos seus pais.
O caso é que, do repertório de habilidades e soluções que eles lhe deixaram, algumas não servem - e causam sofrimento. Para descobrir de onde vieram seus traços marcantes e decidir se interessa mantê-los ou não, ajuda muito saber como nos desenvolvemos e como lidamos com os modelos que encontramos na vida. É disso que fala esta reportagem. Só que aí é com você e mais ninguém. Que tal assumir a autoria da sua vida?
Mas também não dá para negar que, desde o início e por um bom tempo, quem teve lápis e papel na mão para escrever sua história foram seus pais. Eles que decidiram quando dariam início à sua vida, escolheram seu nome, sua religião. Decoraram seu quarto, escolheram suas roupas e decidiram se você iria ter irmãos, em que bairro morar, a escola, a decoração das festas de aniversário e até seu time de futebol - se você é daqueles que se orgulha de torcer para o time adversário, saiba que sua escolha rebelde também tem o dedo de seus pais. Enfim, nesse começo, todas as linhas da sua novela são escritas pelos seus pais - ou pelas pessoas que criaram você. No entanto, são esses capítulos iniciais que vão lhe permitir escrever um dia, de próprio punho, o seu romance, aquele cujo ponto final é a morte.
Esse macaquinho imitador vai muito bem até que começa a repetir gestos dos pais de que eles não gostam. Quem já não viu uma criança ser repreendida por falar o palavrão que ouviu o pai dizer com os amigos? Em vez de agradar, recebe uma bronca. E percebe que o amor que recebe não é gratuito: ele está condicionado a regras de comportamento. Se o menino fica quieto, ganha um beijo. Se grita, ganha um tapa. É o que alguns psicólogos chamam de programação. A criança vai deixando de ser ela mesma, para seguir o gosto dos pais.
Outras crenças aprendemos ao ouvir o que eles, na melhor das intenções, nos disseram. O técnico em turismo Marcos Amaral, de tanto ouvir sua mãe dizer, com toda sinceridade, que sua concepção não tinha sido planejada, criou uma dificuldade enorme em planejar a própria vida, "como se fosse algo tão impossível, improvável, que não fizesse parte de mim", diz Marcos. A questão é essa: o modelo dos pais fica embutido por baixo da maioria de nossas atitudes. "As mensagens expressas pelos pais de uma forma ou de outra passam a fazer parte da vida dos filhos", afirma o psicanalista Luís Cláudio Figueiredo, professor de psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
Começa então uma guerra. Uma guerra saudável de separação, e com ela uma lenta conquista da independência. Começamos a nos habilitar para enfim escrever nossa história, para nos tornarmos adultos. Nunca é fácil. Mas para alguns é pior, dependendo da infância e da relação com os pais. "Sem perceber, engordei muito nessa época. O principal era deixar de ser o príncipe da mamãe. Não agüentava mais ser perfeito, bonitinho, comportadinho", diz Eduardo, aquele que contou parte de sua vida no início do texto. Aos poucos, a batalha vai arrefecendo, o tiroteio escasseando, e de repente cessa. A guerra acabou. Você é adulto, pronto, sabe o que quer e comprou esta revista. Chegamos ao presente. Aqui. Agora.
d) o pavor de perder o emprego;
e) _________ (escreva aqui seu quase).
Os impedimentos à felicidade de cada um, é claro, variam de pessoa para pessoa. Mas, de maneira geral, esses tropeços estão ligados àquelas mágoas, de todos os sabores... Seu chefe grita com você na reunião e você se vê com a mesma vergonha que sentiu quando seu pai lhe deu uma palmada na frente dos amigos. Nessas situações, em vez de agirmos sensatamente, em vez de sentir, pensar e agir, simplesmente sentimos e agimos, porque não queremos encarar aquele sofrimento antigo. É dessas fendas da memória, das quais desviamos o olhar, que ressurgem os comportamentos criados na infância (as imitações dos pais etc.), porque nunca olhamos o buraco de perto para ver o tamanho, a profundidade e o perigo real que ele representa. E de repente você está respondendo como seu pai ou sua mãe, só para não ter que enxergar a verdade (que seu pai batia em você). "A herança da infância nos deixa incapacitados para lidar com algumas situações. E essa incapacidade pode durar a vida toda, se você não dedicar a atenção necessária para desvendá-la e curá-la", diz Lidia Straus, professora de psiquiatria da infância da Unicamp.
E como achamos esse idioma próprio? Em algum momento paramos e nos perguntamos: e se fizéssemos diferente? Ou, num momento de dor, chegamos à conclusão de que "isso não pode mais ficar assim", como se os erros que fazemos, e as dores que eles acarretam, chegassem a um limite.
Lina Teixeira, artista plástica de Curitiba, levou muito tempo de sua vida repetindo seu pai. "Eu negava meu pai, porque via nele coisas iguais às minhas. Quando meu pai via que o trabalho não lhe fazia bem, ele mudava de emprego, e às vezes de cidade, de um dia para o outro. E eu repeti isso. Perdi boas chances profissionais por ser impulsiva como ele e paguei um preço alto por isso. Até que percebi que meu pai fez o que fez pelo bem da família. Consegui entender que, por amor, ele nunca teve medo de conquistar novos degraus. Parei de repeti-lo, vi o positivo nos seus gestos e ele virou meu melhor amigo."
E a história segue assim: apesar de tudo, percebemos que estamos aptos a viver em sociedade e, dentro dela, podemos ser o que quisermos. Como Marcos Amaral, que penou para se livrar da ladainha de que não tinha sido planejado. "Percebi que isso não tinha nada a ver comigo. Que abaixo desse slogan havia uma pessoa organizada, com facilidade para coordenar grupos, excursões, aventuras: eu." Marcos só entendeu seu problema quando olhou de perto. Com isso, ficou ainda mais consciente da sua capacidade de liderança.
Em um mundo ideal, utópico, isso não seria assim. "A educação ideal explica os limites, sem reprimir a liberdade da criança, em vez simplesmente impô-los. Mas quem sabe fazer isso? Será que temos a condição de ser melhores que nossos pais?", diz Denise Ramos, professora de psicologia da PUC-SP. Seus pais também não receberam esse amor utópico, ideal, perfeito. Por isso não conseguiram lhe oferecer tamanha abundância. "Um amor desse jeito, incondicional, é a meta de toda a humanidade. Basta alguém, ou uma geração, quebrar o ciclo negativo do amor pela troca. Basta você começar", afirma Heloísa. Aprendemos a negar nosso lado que erra. Aceitamos só o acerto, só o perfeito que conseguimos manifestar. A auto-estima vem quando você se ama com os seus erros e com os seus acertos. E, consciente da importância do romance que vem sendo escrito há anos, toma a caneta nas mãos.
LIVROS
• O Desenvolvimento da Personalidade, Carl Gustav Jung, Vozes, 1998
• O Código do Ser, James Hillman, Objetiva, 1997
• Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo, Peter Gay, Companhia das Letras, 1989
• Como Passar Sua Vida a Limpo, Marisa Thame e Kani Comstock, Pensamento, 1994
• Eu e Tu, Martin Buber, Centauro, 2003
Na internet
www.institutothame.com.br
www.linhadefuga.com.br
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