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Casar ou não casar

Se for por obrigação, casamento é chato. Se for um ritual convicto, pode ser legal

Soninha Francine

Desde a época em que eu ainda estava no colégio – só de meninas – discutese o tema “casar ou não casar na igreja”. (Duvido que isso fosse assunto na escola do meu irmão, só de meninos.) É verdade que “casar ou não no papel” também era e é motivo de debate, mas parece que essa decisão, qualquer que seja ela, não causa tanto impacto fora do casal. É algo que tem mais a ver com o trato entre os dois que com a relação deles com a família e os amigos. Se os dois forem apenas “juntar” (um escândalo nos meus tempos de escola) ou assinar uma certidão no cartório, não faz tanta diferença para os outros.Mas o ritual na igreja ainda envolve pressões e negociações, mesmo por parte de famílias que não vão à missa todo domingo.

Aos 13 anos, eu tinha planos peculiares: queria ter filhos, mas não necessariamente casar.Naquele tempo, não tão longínquo, casar era um objetivo mais certo que fazer faculdade. Não que eu fosse feroz defensora da “produção independente”. Só não conseguia pensar em casamento como uma meta a alcançar, se nem ao menos tinha um pretendente. Casar significava ficar com alguém,morar junto, dividir os planos (ou multiplicar por dois), não um objetivo “em tese”. Se esse alguém aparecesse, aí sim eu poderia pensar em casamento.

E o engraçado era que me atraía mais a idéia de casar na igreja que no papel passado. Quando me contaram que a igreja exigia o serviço completo, fiquei revoltada: quem disse que Deus faz questão do documento? Eu tinha uma relação amorosa com Deus como eu entendia na época e tinha certeza de que ele me entendia.

Eu adorava a idéia de fazer uma apresentação ritualizada do nosso amor para as pessoas queridas. Ele me espera no altar, ansioso por um encontro como se já não estivéssemos juntos há séculos. Eu caminho lentamente em sua direção e dou um beijo casto, revivendo momentos distantes. Fazemos nossas declarações e promessas, recebemos as bênçãos e o carinho dos amigos.

Acho que isso tudo era mais importante para mim do que para outras pessoas – que jamais cogitariam dispensar a cerimônia por ser um compromisso social, não um rito repleto de significado. Gostava de pensar na lista de músicas e nos convidados – nada de convidar uma tia distante só por obrigação, que também compareceria apenas porque seria feio faltar.Vestido com ou sem véu? Na igreja mesmo ou no campo? Tudo era divertido de cogitar e imaginar.

Não casei na igreja. Se eu tivesse casado, seria por gosto e convicção, não por dever. Mas entendo quem faz uma concessão para agradar a família. Sei que para alguns a idéia é tão horrível que não dá para encarar, nem com muita consideração pelo desejo dos pais. Mas outros podem fazer a cerimônia com a sua cara, mantendo alguns aspectos tradicionais e abrindo mão de outros, e se entregar generosamente à celebração da despedida da vida de “filho”. E as boas-vindas à vida de cara-metade, marido-e-mulher, cônjuge, parceiro, companheiro e, quem sabe, pai-e-mãe.Merece um ritual.

Soninha Francine adora ir a casamentos de pessoas queridas, seja na igreja, seja no campo ou na casa de alguém. almafeminina@abril.com.br

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