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Um constante pendular tece minha vida, fi o a fi o entre o simples e o complexo, o inusitado e o cotidiano. Devagar surge a realidade como uma teia daqui para ali na tensão certa, nem muito esticada nem muito frouxa. Esse balanço, que pela inconstância me mareava, agora é conhecido e recebido com carinho. Olho a mudança com olhos velhos e a desfruto. Já vão 15 dias que estou de volta ao mar, a bordo do veleiro Santa Paz. Embarquei com as meninas em Caravelas, na costa sul da Bahia, e de lá seguimos até Abrolhos. No caminho vimos baleias pela primeira vez. Clara e Júlia vibraram. Que inusitado e mágico ver a força desses animais imensos saltando para fora da água com uma brincadeira infantil.
No porto, é o cotidiano que nos desafi a. Devagar nos acostumamos ao espaço exíguo e à rotina espartana de bordo. Tudo em seu lugar, limpeza e arrumação constantes pautam nossa rotina. É no lavar a louça e amassar o pão que surgem as brincadeiras das crianças e o simples que me fascina.
Para isso ser possível, meu marido Lucas e eu usamos tudo que a tecnologia oferece para tornar nossas travessias seguras. O computador de bordo recebe previsões meteorológicas transmitidas via rádio de ondas curtas. Softwares, circuitos elétricos e motores exigem conhecimentos que muitas vezes não temos. Em locais sem estrutura alguma de serviços, mergulhado em manuais e ferramentas, Lucas comemora cada conserto conquistado. Muitas vezes em meio a fi os e bips do computador escuto-o questionar se é essa a vida simples que escolhemos.
Mas então, lá fora, escutamos um grito. Estamos ancorados no rio em Santo André, perto de Santa Cruz Cabrália. Dois garotos em uma canoa enroscaram sua rede de tarrafa no fundo e pedem ajuda. Lucas vai até eles com uma faca e máscara de mergulho e volta com o sorriso largo. Como é bom esse contato com a gente dos portos. São momentos simples como esse que equilibram a complexidade dos equipamentos e o trabalho constante de manutenção do barco.
Sentimos isso no arquipélago de Abrolhos, onde fomos recebidos pela equipe da Marinha e do Ibama com atenção de família. Pessoas com o espírito do mar, sempre prontas a ajudar, seja para enviar recados telefônicos, seja para conseguir uma autorização de desembarque. Essa entrega e disponibilidade ao outro é o que mais me atrai na vida a bordo.
Em Caravelas, fi camos dez dias ancorados ao lado do Titan, embarcação de mergulho do amigo Thomas. Rapaz novo de alma velha, cuidou da gente como se nos conhecêssemos desde sempre. E o mais gostoso é sentir que essa postura não é exceção. Maurício, comandante do Sanuk, presenteou a tripulação do Santa Paz com 300 litros de água e duas geladeiras de gelo a 60 quilômetros da costa. Regalo que vale ouro no mar.
Percebendo o pulsar que leva do simples para o intrincado, que vai do cotidiano ao mágico, vamos para o norte, até onde a vida nos levar.
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