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Vestir-se é um ato cotidiano. A gente acorda, toma banho, põe a roupa. Assim, sem grandes reflexões. Será mesmo? O que existe por trás da calça jeans que se coloca às pressas antes de sair para o trabalho? Quantas histórias, quantas pessoas envolvidas, quantos materiais retirados da natureza? Em tempos de moda ecológica, a jornalista Ana Cândida Zanesco levanta a bandeira: Eu Visto Consciente. Esse é o nome da campanha lançada pelo Instituto Ecotece, organização sem fins lucrativos que ela criou para divulgar uma forma mais responsável de se vestir. A jornalista despertou para essa visão humana do vestir quando, na estrada, viu um varal de roupas esquecido num posto de gasolina. Pensou: quem seriam as pessoas por trás daquelas roupas? Afinal, há muito mais no ato de se colocar uma camiseta do que se imagina.
Qual é a proposta da campanha Eu Visto Consciente?
A campanha pretende informar as pessoas e, em sua primeira versão, contribuir para o crescimento do mercado de
algodão orgânico no Brasil. O primeiro passo para uma mudança de atitude é estar consciente do que se está vestindo,
é tentar rastrear a origem das roupas que você compra: qual é o processo e quem são as pessoas por trás do produto?
A roupa é a bandeira de cada um. Saber se a roupa que se veste gera vida ou morte é essencial e pode ser um distintivo
de identidade. No planeta, somos mais de 6 bilhões de pessoas e o algodão está presente em mais de 40%
dos têxteis mundiais. A primeira ação da campanha foi a adaptação em nosso site do vídeo Fibra Ética: Algodão Orgânico,
que fala sobre a contaminação de agricultores no plantio de algodão com agrotóxicos em Benin, na África.
Quais os problemas gerados pelo cultivo de algodão hoje?
O algodão é a cultura agrícola que mais polui e mais mata agricultores no mundo. De terras cultiváveis no planeta, a fibra
tem apenas 3%, mas contabiliza 25% dos agrotóxicos consumidos no mundo. Por ter a justificativa de que não é alimento,
coloca-se no plantio do algodão até oito vezes mais pesticidas do que em lavouras de alimentos. São usados cerca
de 160 gramas de agrotóxico para produzir algodão suficiente para confeccionar uma camisa que pesa 250 gramas. O
que pouca gente sabe é que do caroço do algodão se produz óleo comestível e também uma ração para alimentar gado leiteiro,
pois o caroço da planta tem uma propriedade que aumenta a quantidade de leite produzido pela vaca. Portanto,
indiretamente esse agrotóxico está presente em nossa alimentação.
O orgânico seria uma alternativa?
No Brasil, 90% do cultivo de algodão vem dos grandes produtores. O sistema orgânico é uma alternativa de geração
de renda para os pequenos agricultores, além de canalizar a educação desses trabalhadores e de suas famílias, pois quem
acessa os valores e princípios contidos no conceito de orgânico não é apenas quem consome, mas também quem
produz. Estive presente em um seminário sobre algodão na Paraíba, onde o filho de uma agricultora me disse: Não
podemos usar veneno na lavoura porque o veneno mata as formigas e elas são afofadoras do nosso solo. Isso é
educação, sem dúvida.
Mas o orgânico não é para poucos?
O foco do vestir consciente não está no produto, mas no processo, no conteúdo que o produto é capaz de trazer. Há
histórias ali, valores, houve gente que trabalhou para fazer aquele produto. Uma roupa é também um veículo de
educação, de conceitos, de princípios. E, quando alguém entra em contato com essa roupa, acessa todo esse conhecimento
junto. Como as peças orgânicas ainda são mais caras no Brasil, ficam restritas à elite. Mas a proposta do vestir
consciente pode chegar às classes sociais de baixa renda através de outras matérias-primas, como roupas doadas e retalhos.
Montamos a Retece, uma oficina de estudos e práticas para mulheres de uma comunidade em Santo André, na
Grande São Paulo. Apresentamos conceitos e desenvolvemos atividades para reformar roupas usadas. É uma maneira
de contribuir, pois aumenta o tempo de vida de uma peça e reduz a demanda por algodão convencional.
O que difere vestir consciente de moda ecológica?
Vestir consciente tem horizontes mais amplos do que moda ecológica. Um dos significados da palavra moda é passageiro,
transitório. A consciência deve ser diária, presente. A moda ecológica está mais ligada à preservação da natureza. A expressão
vestir consciente transcende a questão militante ambiental para chegar à presença da consciência em uma ação
cotidiana. Por isso escolho a palavra vestir, e não moda, pois vestir é um verbo, uma ação presente na vida todo dia.
E como é possível estar mais consciente nessa ação?
Saber se estamos consumindo ou sendo consumidos pelo ato de comprar é um bom começo. É preciso estar atento para
saber até que ponto nossos atos são pautados por influência dos constantes estímulos de compra que recebemos ou por
uma verdadeira necessidade ou desejo. Depois, é preciso saber a origem, o processo por trás do que se veste. Também
podemos prolongar a vida das roupas e usar a criatividade para isso. Esta blusa que estou vestindo, por exemplo, não é
de algodão orgânico, mas é feita por uma mulher que tem deficiência visual. É uma forma de valorizar a vontade dela
de batalhar, de poder fazer um crochê mesmo com todas as suas limitações físicas. Eu sei o valor das mãos contido
aqui. O ideal é o ativo social e o ambiental caminharem juntos, mas, como estamos engatinhando nesse processo, é
preciso ter flexibilidade.
É possível ser consciente sem perder o foco da roupa como expressão de identidade?
A roupa é a bandeira de cada pessoa. E a bandeira é, em si, um pedaço de tecido com uma ou mais cores, com legendas e
símbolos, que se hasteia e que serve como distintivo de identidade. Nossa proposta é nos vestirmos com a consciência de
que a vida é um tecido onde tudo e todos são como fios que se conectam. O bem que praticamos em nosso pequeno mundo
tem reflexo em todo o Universo. Os tecidos das roupas materializam essa realidade da conexão da vida, que é invisível.
O tecido é visível, uma metáfora materializada. A proposta do vestir consciente não é perder o próprio estilo. Pelo
contrário. É buscar esse estilo, romper com os padrões que a moda prega, é ser autêntico, buscando a consciência, a prática
do não-desperdício, da valorização ao trabalho manual. Quem sou eu? Como me expresso através de minhas roupas?
Afinal, qual é minha bandeira?
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