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Coisa mais sem graça explicar piada. Mas, ok, vamos lá: um gracejo é uma luta entre intelectos. De um lado, o humorista (ainda que amador), para quem só serve a vitória. Do outro, o espectador (ainda que se ache profissional), para quem o melhor resultado é... a derrota. Sem essa de disputa melada. O espectador vai resistir até o fim, protegendo a guarda dos clichês, contra-atacando qualquer incoerência. No ringue do humor, só vale a pena perder se o golpe for certeiro, imprevisto. Desses que deixam o abdome dolorido, do tanto que se ri. Se bem que, às vezes, basta um sorrisinho sincero, de canto de boca, para se perder gloriosamente por nocaute.
Há quem acredite que humor seja uma habilidade inata. Mas, se a comicidade é uma questão de inteligência, ela pode, no mínimo, ser desenvolvida, certo? O riso é uma equação matemática, define o ator, diretor e dramaturgo Hugo Zorzetti, professor de Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás e autor do Manual do Humorista Doméstico. A comicidade tem potencial para ir muito além do campo da intuição, diz. Isso quer dizer que, sim, você pode ficar mais engraçado. Nessa (in)disciplina, humoristas e palhaços (profissionais e amadores) têm muito a ensinar. Mas boa parte do aprendizado depende mesmo de autoconhecimento e exercício diário. Treino, como fazia Rocky Balboa com o saco de areia.
Mas... para que serve a comicidade? De forma breve: para aliviar a tensão, estabelecer contato, espantar o medo, protestar contra a ordem vigente, denunciar uma hipocrisia, escapar do vazio existencial ou, ufa, apenas deixar essa vidinha besta um pouco mais divertida. No livro O Riso, o filósofo francês Henri Bergson propõe um exercício: Basta tapar os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que os dançarinos lhe pareçam ridículos. Porque a comicidade, ele acredita, exige algo como uma anestesia momentânea do coração ela se dirige à inteligência pura. É um descanso para as emoções.
E um elixir para o corpo, como explica o médico Roberto Leal Boohrem no Dicionário de Medicina Natural. Quando rimos, acentuamos nossa freqüência respiratória, introduzindo mais oxigênio no sangue e aumentando os batimentos cardíacos. O humor também está relacionado à liberação de hormônios estimulantes, como a adrenalina e a noradrenalina. Você fica fisicamente mais disposto e mentalmente mais alerta.
Se foi mesmo um médico o criador daquela velha prescrição rir é o melhor remédio , é possível também que ele estivesse pensando num analgésico (e, claro, ainda não previsse a descoberta, a penicilina). Quando você sucumbe a um gracejo, seu cérebro produz endorfina, substância química natural que alivia a dor. Um processo que se retroalimenta. Com menos dor, o clima fica mais propício para achar graça na vida, não é verdade?
Questão de treinoBoxe, matemática, sociologia. Humor requer (ou propicia) uma capacidade privilegiada de análise. Cinema. Você amplia o enquadramento e descobre o ridículo de uma situação em plano geral. A vida é uma tragédia quando vista de perto e uma comédia quando vista de longe, bem disse Charles Chaplin. Então, ajuste o zoom. O humorista Jerry Seinfeld ou mesmo aquele seu tio impagável é um cara que sabe enxergar o contexto. Para, em seguida, aproximar de novo o zoom e identifi car os detalhes que revelam o todo. Anote aí: piada é só uma reorganização autoral das circunstâncias.
É o que fazem, por exemplo, os profi ssionais da stand-up comedy, a comédia em pé ou o humor de cara limpa, como você preferir. Como Seinfeld no começo da carreira, são cronistas bem-humorados que se apresentam em pequenos palcos, vestindo apenas tênis, jeans e camiseta do jeitinho que saíram de casa. O tema é a vida: uma notícia de jornal, um acontecimento na família, um comportamento social... A informalidade da apresentação dá impressão de que o humorista pensa tudo na hora mas não é bem assim.
O ator e comediante Rafinha Bastos, do Clube da Comédia um combo de humoristas que se apresentam em São Paulo , explica que o texto é preparado com antecedência. Revisado, refeito, revisado. Mas é o tom descontraído, de bate-papo, que garante as risadas. Humor não pode ser solene (a não ser que seja para rir da solenidade). Por isso, quem anuncia uma piada fantástica, em geral, já começa a arruiná-la. Sou contra quem quer ser engraçado, brinca Rafi nha, cujos vídeos, sempre descontraídos, já viraram um fenômeno no site YouTube.
Para o cartunista e também comediante em pé Danilo Gentili, o humor é a expressão do que há de mais genuíno na forma como uma pessoa encara a vida. Você pode se identifi car com o humor de alguém, mas é preciso achar o seu. Como se faz isso? Você observa a sociedade, os costumes, e pinça o que lhe parece engraçado. Depois, frio na barriga, você precisa testar a piada em público. Entenda piada aqui não como uma anedota completa, dessas que se contam em rodinhas nas festas: às vezes, é um pensamento, uma frase, um trejeito, um conceito. Se não der certo, você pode pensar um pouco mais sobre o assunto e tentar arrumar a piada, diz. Pois é, piada pode ter conserto.
Uma palavra, uma pausa. Às vezes, é o detalhe que faz a diferença. Mas sem apego. Se não der certo, você parte para outro gracejo e uma nova sessão de testes. O importante é não ter medo do fracasso e aprender a usar o retorno que recebe das pessoas como um meio de se aprimorar não de se ofender. Como já disse Luís Fernando Veríssimo, a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.
Mas o ridículo que é seu. Tomemos o exemplo do próprio Veríssimo, que é tímido, mas faz rir, por escrito, com a maior desenvoltura. O humor é plural: pode ser físico ou mental, sutil ou escrachado, simpático ou ácido, genial ou pateta, etc. ou tal. O mesmo vale para a forma. Em potencial, você pode ser um imitador perspicaz, um caricaturista genial, um brilhante redator de mensagens de texto para celular ou mesmo um hábil criador de ambigüidade proposital qual é a sua graça?
O publicitário Alexandre Caliman já descobriu a dele: Não é porque estou na minha presença, mas sou bom em trocadilhos. Reparou como ele nos surpreende ao subverter o batido modéstia à parte? (Ih, olha eu explicando piada de novo...) Alexandre, como Danilo, admite que aprende muito sobre humor por tentativa e erro. Fã do Monty Python e de Andy Kauffman, Alexandre começou a arriscar as primeiras gracinhas na adolescência, para se aproximar das garotas. Hoje, eu perco a mulher, mas não perco a piada, diverte-se. Acabou descobrindo no humor um fim em si.
Planeta dos homensA capacidade humana de rir é compartilhada com nossos companheiros primatas a principal diferença é que chimpanzés podem gargalhar sob um ataque de cócegas, mas são insensíveis a um trocadilho. O homem primitivo mostrava os dentes como uma ameaça de agressão, uma advertência. Mas esse mesmo mecanismo de defesa e ataque podia se transformar numa expressão de afabilidade quando acompanhado de contorções faciais específi cas e sons inarticulados. A gargalhada é um convite à brincadeira ou a aceitação declarada dela.
O fato de bebês sorrirem com movimentos bruscos ou mudanças repentinas de expressão sugere que falhas nas seqüências de comportamento podem causar riso. Sempre me pareceu que o riso era a forma encontrada pela mente humana para lidar com o incongruente, afi rma Norma Cousins em Cura-te pela Cabeça. O rompimento imprevisto do fluxo lógico exige algum tipo de liberação assim é desencadeada essa agradável reação física que chamamos de riso.
Hugo Zorzetti costuma dividir a piada em dois momentos: a preparação e o desconcerto. Primeiro você apresenta o cenário, a situação, os personagens. Alimenta a curiosidade do espectador e o conduz a um padrão de raciocínio para, em seguida, puxar-lhe tapete.
Falando sério (mas nem tanto), o pesquisador francês Georges Minois, autor de História do Riso e do Escárnio, afi rma que o riso é uma questão importante demais para ser deixada a cargo dos cômicos. É por isso que, desde Aristóteles, hordas de filósofos, historiadores, psicólogos, sociólogos e médicos, que não são nada bobos, encarregaram- se do assunto.
Na Antiguidade clássica, o riso era tido como uma característica divina, a expressão maior da suprema liberdade, como testemunham as numerosas estátuas da época com deuses animados por uma súbita gargalhada.
A graça acabou na Idade Média, quando a Igreja Católica, rica e fortalecida, pregava o sacrifício dos prazeres e o temor a Deus. E é talvez o medo, não o choro, o oposto do riso (afi nal, é possível chorar de rir, não?). O humor tornou-se então uma característica diabólica. Era o Diabo o grande zombador, o rei do escárnio. Postura que, nos homens, só era tolerada em festas pagãs, como o Carnaval.
A comicidade retorna triunfante, e risonha, a partir do Renascimento, para caçoar das instituições em decadência. Com o progressivo abalo dos valores vigentes, o riso penetra nas fi ssuras do absoluto, para denunciar o ridículo da religião, no século 18, da monarquia, no século 19, e do autoritarismo, no século 20. O humor precede todas as revoluções sociais, afi rma Zorzetti. Crônicas, caricaturas, charges, encenações, anedotas. O déspota levado ao riso não dura.
Nada para rirMas a função primordial do humor talvez seja solucionar, com irreverência, as perguntas não respondidas pela ciência, pela fi losofi a e pelas religiões. No centro de todas as questões, há a mesma interrogação: afi nal, o que fazemos aqui?, provoca Minois. Quando a fé não basta, a explicação não convence, a conta não fecha, o humor, quem diria, pode se tornar a única atitude razoável. Os bobos da corte eram caras muito espertos. O riso nos permite aceitar sem compreender, assumir tudo sem levar nada a sério. Como escreveu o acadêmico francês Armand Petit jean, não há nada que um humor inteligente não possa resolver com uma gargalhada, nem mesmo o nada. O humor é uma forma de coragem, é antimedo. Eis um exemplo oportuno, do Millôr: O pior não é morrer é não poder espantar as moscas.
A psicóloga hospitalar Maria Regina Monteiro faz dessa crença uma filosofia de vida. O humor é um mecanismo de defesa, diz. No trabalho, ela lida todos os dias com a impotência. Diante de uma criança de 10 anos, com uma doença degenerativa, o melhor que posso oferecer é minha energia. Às vezes, num hospital e na vida, o humor é o último recurso.
Para o líder espiritual indiano Shree Rajneesh, a vida é, em si, uma piada cósmica. A existência, ele garante, não é um fenômeno sério. Leve a vida a sério e você continuará a perdê-la a vida só é compreendida por meio da risada. O problema é que se costuma confundir seriedade com respeitabilidade. E isso é sério, isto é, sem graça.
Sabe por quê? Quando esquece o riso, você esquece as canções, o amor, a dança, diz o indiano. Mas como um tipo rabugento pode ativar sua comicidade? Não existe isso de despertar o humor: você simplesmente remove as barreiras, afi rma o guru. Ele já está em você, já é um fato.
Freud, o pai da psicanálise, afirmava que o riso é uma tentativa de recuperação da espontaneidade na infância. No ensaio O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente, de 1905, ele define o instante da comicidade como a eliminação temporária da censura diante da angústia e da ansiedade, assim como o sonho, o imaginário e a fantasia. O humor seria a percepção sublimada das tragédias humanas.
O chiste (piada, trocadilho ou afins) pode ser inocente ou tendencioso. Nesse caso, uma forma de distorcer, agredir ou manipular. Um golpe baixo, para retomar a metáfora pugilista. É um tipo de humor que até entretém determinados públicos, mas pode desencadear sofrimento e incitar reações violentas. A depreciação é mais humana quando autodepreciação.
Porque a autocrítica bem-humorada é uma forma de ternura consigo mesmo. É como falar mal da família só vale para parente. Pense num nazista fazendo piada sobre judeus. Agora, pense num judeu discorrendo sobre os ridículos e incoerências da própria cultura de quem é vítima e multiplicador. Faz toda a diferença, né?
Talvez por isso o talento para a comicidade seja atribuído, em geral, a segmentos marginalizados, como gordinhos ou nordestinos. Estereótipos, claro. Mas há uma certa graça no desencaixe, no que escapa dos padrões. Pessoas muito bonitas não rendem caricaturas interessantes, já reparou?
A comédia de situação norteamericana Friends é considerada um dos maiores sucessos do gênero de todos os tempos. Se você observar as características principais dos seis protagonistas, vai deparar com uma lista de defeitos. Rachel é patricinha; Ross, um nerd de marca maior; Mônica sofre de transtorno compulsivo- obsessivo; Phoebe é aérea, quase doida; Joey, guloso e burro; e Chandler, ah, um viciado em piadas.
O exagero no emprego do humor pode denunciar uma dificuldade particular de lidar com temas mais ásperos, como no caso do nosso querido friend. Como cantava Vinícius, ser alegre é melhor que ser triste, mas, sem um bocado de tristeza, não se faz um samba, não. A compulsão por piadas também pode esconder uma personalidade egocêntrica, uma necessidade persistente de atrair atenção. Se você já esteve numa festa de aniversário, e já foi refém de um tipo desses, sabe do que estou falando.
Piada a gente não impõe é algo que se oferta, em momento propício. Humor pode até ser matéria que se prepara com antecedência, mas só se consuma em comunhão com instante. Comédia é sempre ao vivo, ainda que estejam gravando. Talvez por isso chamem a habilidade para fazer graça de presença de espírito.
Sem hora certaHoje, parece que o humor está em toda parte no cinema, nos programas esportivos, nos comerciais de tevê, nas tiras de jornal... Menos no instante presente da vida real. O medo, a pressa e a preocupação, emoções tão recorrentes na vida urbana, são inimigos do humor. Assim, muita gente acaba reservando horário e local para rir como uma sessão de cinema no domingo. Isso é triste.
Humor é para a vida. Mas é claro que a arte pode dar algumas deixas. A companhia de palhaços improvisadores Jogando no Quintal, de São Paulo, treina três vezes por semana para apresentar espetáculos sem... roteiro. Com uma estrutura inicial simples, uma partida de futebol, eles se entregam às idéias do público para a concepção de um humor instantâneo e colaborativo.
O desafio é entrar em cena vazio, diz Allan Benatti, o intérprete do palhaço Chabilson. Sem idéias preconcebidas, eles trabalham só com o que o momento oferece. Os ensaios são uma preparação para esse estado de prontidão. Corpo neutro, mente idem. Em cena, todas as interferências são acolhidas. Se você estiver na platéia e o celular tocar, bem-vindo ao enredo.
Um espectador levanta um tema e os palhaços já começam a vivenciar as histórias. Sem comunicação prévia, privada, os colegas precisam se manter atentos uns às escolhas dos outros. O Chabilson pensa uma coisa, mas seu colega segue outro caminho alguém tem que ceder. No humor, você não pode se tornar refém das próprias expectativas, ensina Marco Gonçalves, o palhaço Fonseca. É um exercício de liberdade e generosidade, em que o mais importante, quem diria, é o processo não o fim. Nem parece piada.
Porque a vida é assim, não? Pode acabar de repente, sem o arremate esperado. Por isso, aceite esse humilde trocadilho: ri melhor quem ri durante. Quando você vive o humor no cotidiano, já descobriu a graça. E pode, numa boa, abrir mão de um desfecho engraçadinho.
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