![]() |
![]() |
Dizem que a cozinha é lugar sagrado, pois é ali que nasce a alquimia capaz de alimentar um lar. Alquimia colorida de sabores e pitadas, capaz de inventar aquelas comidinhas da infância que mais tarde recheiam de sentimentos a vida adulta. É na cozinha que conversas de mãe acontecem, conversas que curam e alimentam. Por isso é tão bom quando a cozinha resolve invadir as páginas dos livros. Os livros aceitam o convite para a refeição, é claro.
Pois essa mistura de quitutes e história é danada de boa. É bem possível que uma história que tem em seu enredo uma farta comilança tenha ficado para sempre gravada em sua memória. Podem ser os bolinhos de Tia Nastácia, as codornas de Babette, a gula selvagem de Pantagruel ou a moqueca de Dona Flor prova irrefutável de que literatura e gastronomia são capazes de armar um verdadeiro banquete.
Desde tempos imemoráveis a comida e as histórias são uma parceria de encanto e prazer. Além de a comida ser peça importante da narrativa universal, também na vida cotidiana as refeições eram acompanhadas de espetáculos ou de contação de histórias. O rei e a rainha beberam o chá e todos fizeram o mesmo. A seguir cada um começou a comer. Após a refeição, que transcorreu em absoluto silêncio, todos olharam esperançosos em volta. Quem seria hoje, entre eles, o narrador?, perguntavam-se os presentes na refeição do romance Sabá, o país das mil fragrâncias, da austríaca Roselis von Sass. Entre carnes de caça, carneiro sobre mingau de milho, frutas cozidas com mel, bolos de amêndoas, sempre havia espaço para apresentações de música, jogos e danças.
Da Grécia antiga vêm importantes registros de jantares acompanhados de histórias e reflexões. Luiz Roncari, professor de literatura brasileira da USP, lembra O Banquete, de Platão: Não apenas se comia e bebia, mas conversava-se sobre altos temas filosófi cos, faziam-se reflexões sobre a vida, o homem e o amor, diz. O livro trata de um jantar oferecido por Agáton a alguns amigos, entre eles Sócrates, em que cada um dos presentes é convidado a fazer um discurso sobre o amor, pai da riqueza, da doçura, das delícias, das graças, da paixão, do desejo, segundo o anfitrião.
O professor Roncari conta que a mais famosa descrição de um banquete aparece em uma sátira do século 1, Satiricon, de Petrônio, um clássico da literatura latina. Trimálquio, anfitrião fanfarrão, pertencia às classes emergentes e pretendia impressionar seus convivas pela opulência de sua hospitalidade. O jantar extravagante era sucedido por espetáculos e por diálogos eruditos. Javali, azeitonas, tâmaras frescas e secas faziam parte dos quitutes.
Brillat-Savarin, um juiz francês apaixonado pela gastronomia que viveu no século 19, diz no livro A Fisiologia do Gosto que até meados do século 18 as poesias celebravam Baco e suas dádivas, associando o vinho ao amor. Novas descobertas trariam à mesa prazeres como o açúcar, o café, o chá, o chocolate. Com isso, a porta da cozinha foi definitivamente aberta para poetas e escritores, e os ingredientes mais variados foram postos nas páginas, mesclando gula e paixão, lirismo e saciedade. A aristocracia francesa e suas mesas fartas retratadas em O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust, são um exemplo.
Foi assim que a comida se tornou também entre nós um personagem cheio de sensualidade, misturando-se com beijos em Dona Flor e seus Dois Maridos, um dos livros mais conhecidos de Jorge Amado. Na escola de culinária Sabor e Arte, Dona Flor lamentava a morte de Vadinho, ao ensinar a receita de moqueca de siri-mole: Era o prato predileto de Vadinho, nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri-mole, seus lábios amarelos do dendê. Ai, nunca mais seus lábios, sua língua, nunca mais sua ardida boca de cebola crua!
Mario de Andrade, por sua vez, apresentou no conto Peru de Natal uma refeição conturbada, em que uma família luta com o vulto do pai morto ao comer a ave: Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
Comida pode encarnar a metáfora picante da conquista. Isabel Allende lembra em Afrodite um encontro que uma amiga teve com um homem muito desinteressante. Quando ele entrou na cozinha, porém, dourando mariscos e fazendo facas dançarem, o olhar da moça mudou. Em poucos minutos aquele homenzinho patético se transformou: sua cabeleira de palhaço adquiriu a força viril de uma juba de leão sinal de que a alquimia da cozinha pode virar qualquer jogo.
A maneira como o alimento aparece na literatura de ficção é expressão muito reveladora da realidade histórica, geográfica e social, como, por exemplo, na literatura de Honoré de Balzac, que mostra muito bem a França do século 19, através de detalhadas descrições e dezenas de receitas de pratos, diz Ricardo Maranhão, professor de história da gastronomia.
Assim também pensa Philippe Willemart, professor de literatura francesa da USP, que considera Gustave Flaubert um exemplo significativo: Em Salammbô, as refeições dos mercenários mostram até que ponto Flaubert tinha informações mais precisas que os historiadores da época. E cita um trecho desse romance clássico: Era em Mégara, bairro de Cartago, nos Jardins de Hamilcar (...), os soldados, deitados de bruços, puxavam pedaços de carne, e se saciavam encostados nos cotovelos na postura pacífica de leões quando despedaçam sua presa.
Verdade é que a literatura francesa não apenas dá pistas para historiadores, mas ainda exporta palavras que ajudaram a enriquecer a língua portuguesa. Pergunte aos pantagruélicos, sempre dispostos a assaltar a geladeira. Um sujeito pantagruélico é aquele que lembra o personagem comilão de François Rabelais, escritor francês do século 16. Pantagruel, herói de seu primeiro romance, é filho de um gigante e demonstra ter desde a infância uma força descomunal, superada apenas por sua voracidade. O personagem foi tão marcante que acabou virando adjetivo na nossa língua.
Mas nem só de gulas e iguarias francesas se faz um bom livro. Em muitos autores italianos, a presença do alimento nos livros é uma forma de tempo e de espaço, um prazer substitutivo ou complementar do prazer amoroso, uma recordação, uma alusão, um gesto demonstrativo, diz Fabiano Dalla Bonna no livro Literatura e Gastronomia. Pode ser ainda que a comida simbolize mais: Um código social, um sinal do caráter dos personagens, uma impaciência, uma liberdade, afirma Dalla Bonna.
Por aqui, nossas histórias também têm história. Um exemplo é José de Alencar, que mostra os costumes e a geografia do Brasil em seus romances regionais, conta José Antonio Pasta Junior, professor de literatura brasileira da USP. O professor lembra ainda Monteiro Lobato, com a comida caipira do Vale do Paraíba, e Guimarães Rosa, que no conto Substância mostra a vida em torno do polvilho, amido da mandioca (raiz consumida no Brasil de norte a sul): Estendeu também as mãos para o polvilho solar e estranho: o ato de quebrá-lo era gostoso, parecia um brinquedo de menino.
Gostosa como a mandioca de Rosa é essa brincadeira de quitute com história! Como bem definia o francês Brillat-Savarin, quando dizia que sempre existiu uma íntima aliança entre a arte de bem dizer e a arte de bem comer. Agora diga lá, essa conversa toda deu mais fome de livro ou de comida?
LIVROS
A Fisiologia do Gosto, Brillat-Savarin, Companhia das Letras
Literatura e Gastronomia, Fabiano Dalla Bonna, Itália Nova
Fogão de Lenha, Maria Stella Libanio Christo, Garamond
O Cinema Vai à Mesa, Nilu Lebert e Rubens Ewald Filho, Melhoramentos
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição