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Há quem faça cara feia ao ver, logo cedinho, a frota de Kombis descarregando seus produtos no meio da rua: nesse dia não tem jeito, vai faltar vaga para estacionar o carro. É preciso, também, negociar a passagem livre nas garagens próximas e acostumar o ouvido ao burburinho que se avoluma, conforme o avançado da hora. Mas, aos poucos, o bairro vai acordando com o cheiro de salsão e de mexerica, café quente de garrafa térmica, rádio de pilha ao fundo. Quando os facões são amolados e as primeiras lascas de pêra oferecidas, não resta dúvida: a feira começou.
Aí, é festa. E bem democrática, onde podemos encontrar o senhor Eduardo, já-de-gravata-antes-de-ir-para-o-escritório, dona Edite e seu carrinho-de-feira- feito-sob-encomenda-em-1951, a Bia e o marido-que-gosta-de-alcachofra- com-os-talos, a Tereza, que é cozinheira. Atraídos pela exuberância das barracas de frutas e legumes, pelo frescor das verduras e dos pescados, pelos preços baixos, pela simpatia do senhor João das Bananas, faça chuva ou faça sol, eles aparecem para fazer as compras da semana. Chefs de cozinha também encontram ali seus fornecedores. Os ambulantes aproveitam o movimento, enquanto carregadores fazem força.
Toda essa confusão organizada dá saudades em quem está longe de casa. Afi nal, fazer feira é mais que colocar provisões na sacola, é um modo de exercitar a sociabilidade.
Em tempos de internet, duas paulistanas e uma paranaense (que mora em São Paulo) inventaram uma maneira de trocar experiências gastronômicas: no blog Conversas (virtuais) de Cozinha, Samantha Shiraishi, Lina Yamada e Maria Augusta reservaram espaço para falar do assunto. Enquanto a Samantha trabalha, às terças, com a gritaria das ofertas de tomate na feira atrás de sua casa, a Maria Augusta, da cidade de Nantes, na França, conta que, apesar da enorme variedade de queijos e de cogumelos, das frutas como a carambola e a manga que são caríssimas e das bancas de flores, parece faltar algo. Faltam duas coisas essenciais: a primeira é a gritaria dos vendedores para atrair a atenção dos fregueses ou para fazer piadinhas sobre as moças bonitas que passam. A segunda é que não tem nenhuma banca de pastel... e isso é mesmo imperdoável!, afirma. Lá tem tachos de paella e cuscuz, que são feitos na hora, mas, ainda assim, não tem o delicioso pastel. Sua amiga Lina, que mora no Japão há 15 anos, não tem do que reclamar nesse quesito: não falta pastel na cidade onde vive. Mas, em compensação, diz que não existe nada parecido com a verdadeira fartura alimentícia presente nas feiras brasileiras. Aqui até temos mercados de peixes, mas tenho saudade de ver o colorido, o aroma, a variedade..., afirma.
Mesmo dentro do Brasil existem características próprias, que revelam o jeito de ser e de interagir de cada região, o que se reflete na culinária típica do lugar. Quando a professora de educação artística Renata Kely saiu do Ceará, por exemplo, levou um susto. Salada, por lá, é alface e tomate. Eu não sabia o que era couve-flor, couvemanteiga, brócolis. Em Fortaleza, as feiras eram menores e tinham outro caráter. Ali se encontram utensílios, roupa e cerâmica, diz. Já morou no bairro central da Liberdade, na capital paulista, e na cidade de São Bernardo (SP). Hoje vive no bairro paulistano da Pompéia, a poucos metros da feira da rua Caiowá, que acontece todas as quartas-feiras.
A feira já é inclusive objeto de pesquisa acadêmica. Em sua monografia O significado da feira livre (Universidade de São Paulo, 1976), a pesquisadora Ita Kozlowski explica que é o caráter popular da feira que a faz transcender sua função de abastecimento nos espaços de uso público, ruas, praças e jardins. É o comércio calcado na confiança mútua, no relacionamento, na emoção, afirma.
Já era assim na Europa medieval: a produção, tendo por objetivo alimentar a população local, era vendida a varejo nos chamados mercados. Naquela época, feiras eram reuniões mensais de mercadores de várias regiões. O professor Flavio Saes, da Faculdade de Economia e Administração da USP, diz que poderíamos chamá-las de feiras de atacado. Numa época em que a navegação pelo Mediterrâneo era restrita pelo domínio dos muçulmanos no norte da África e partes de península Ibérica, havia um comércio terrestre que, partindo dos portos italianos, levava mercadorias orientais para a Europa Ocidental. Assim, principalmente na região da Champanha, na França, havia uma série de feiras, em épocas determinadas (com duração de uma ou mais semanas), em que comerciantes se encontravam para trocar mercadorias, que levavam para os mercados das cidades européias.
Muitas formas do comércio varejista foram sendo aperfeiçoadas através dos tempos, mas dos mercados às quitandas, passando pelos ambulantes, o burburinho sempre esteve presente, com seus pregões, o tabuleiro no meio da rua, toda sorte de mercadorias. Aqui no Brasil, desde o século 18 há notícias de medidas tentando regulamentar o funcionamento desse tipo de comércio, visando controlar preços e minimizar os problemas. Em 1904, o então prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, autorizou o funcionamento das feiras aos sábados, domingos e feriados. Em 1914, o prefeito de São Paulo Washington Luís também cria a feira livre por decreto-lei. Era o reconhecimento oficial da atividade dos mercados francos e estabelecia o horário de funcionamento (das 6h às 11h), os produtos a serem comercializados e os locais adequados. Durante o século 20, novas leis vão estabelecendo critérios mais específicos quanto aos cuidados com a higiene, com os veículos utilizados para o transporte dos alimentos e o número e a identificação dos trabalhadores, assumindo um papel essencial no crescimento urbano.
Hoje, na cidade de São Paulo, por exemplo, são 890 feiras livres, de terça a domingo. Segunda-feira, quando todo mundo se prepara para começar a semana, o feirante tira folga. A professora Leny Sato, da Faculdade de Psicologia da USP, estima que esse mercado de trabalho gere renda para cerca de 40 mil pessoas.
Quase um século depois de sua criação oficial, a despeito do crescimento de supermercados, sacolões e pequenos estabelecimentos, cerca de 50% do abastecimento da cidade ainda provém das feiras livres. Pelo menos essa é a estimativa do engenheiro agrônomo Gabriel Bitencourt, que trabalha no centro de qualidade em horticultura da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), onde se negociam 10 mil toneladas de frutas e hortaliças diariamente. Os feirantes são, na sua maioria, sujeitos especializados, conhecedores do seu produto. Eles querem levar o que vai agradar ao freguês, porque no corpo-a-corpo da feira você experimenta o produto, vê o quanto é saboroso e volta ou reclama na semana seguinte!, diz.
Quando criança, Alex Valdarnini trabalhou com os pais, na feira. Ele conhece bem essa dinâmica, dos dois lados da barraca. No início, a família fazia pastéis, depois venderam bananas e, por fim, ovos. O menino gostava de conversar com pessoas diferentes e ficava desenhando-as. Hoje fotógrafo, Alex conta que seu método é andar toda a feira e depois voltar comprando. Na dúvida, sempre peço para cortar um tomate ao meio. Para fazer molho, o ideal é carnudo sem muita água.
Sempre há quem pregue a extinção iminente das feiras, tendo em vista a facilidade dos locais fechados, ao abrigo da chuva e do calor, dos estacionamentos, das compras a prazo, das redes 24 horas. O Jaime, mais conhecido como Casagrande pelos fregueses antigos, começou a trabalhar com o pai, há 20 anos, na barraca de miudezas, e reclama: Hoje está difícil, dá para sustentar a família, mas a feira diminuiu bastante. No mesmo quarteirão, o senhor Jarbas, da barraca de laticínios, faz coro. A gente trabalha de teimoso, agora. Não tem como concorrer com preço de supermercado. Então, conquistamos a clientela na simpatia.
Para atualizar sua banca de temperos, o Carioca aciona os amigos da Bahia, da Espanha, da Itália, da Índia e da Alemanha. Orgulhoso, ele faz sua propaganda, contando que tirou foto ao lado do premiado chef Alex Atala e que está no livro Por uma Gastronomia Brasileira. Aiako, da banca de verduras e legumes, sempre procura um diferencial: a qualidade. Temos produtores muito bons, hoje, com coisas maravilhosas. Tudo mudou, né? Até a apresentação dos produtos, a embalagem... Às terças, Aiako, pelo celular, aceita encomendas, que entrega na região dos Jardins e do Morumbi. Nesse dia não monta barraca mas, mesmo assim, é dia de feira!
COMPRAR TUDO FRESQUINHO Todo dia, os feirantes madrugam no Mercado Central, em busca de produtos para vender na esquina da sua casa.
EXERCITAR O PALADAR A variedade de cada produto é maior do que no supermercado e você pode ser surpreendido pelo gosto de um mamão sunrise ou de uma pimenta-do-reino verde.
TROCAR RECEITAS Como preparar shimeji? Fale com quem entende. Dois dedos de prosa com o dono da barraca e ele orienta para que a receita não desande.
COMPRAR A GRANEL Você mora sozinho e quer levar três bananas mais maduras e três mais verdes? Tudo bem.
CONHECER GENTE NOVA A feira é um ponto de encontro da vizinhança do seu bairro. Dá para botar a conversa em dia e, quem sabe, até paquerar.
BATER PERNA! Aproveite para acordar cedo, deixar o carro em casa e andar pelas ruas de seu bairro. A paisagem muda conforme a hora do dia.
CONSERTAR MIUDEZAS Onde mais trocar a borrachinha da panela de pressão? E afiar tesoura ou alicate?
COMER PASTEL Paulista, por exemplo, não vive sem pastel e caldo de cana. Os fãs da tapioca, da água de coco e da cervejinha também são contemplados.
DAR RISADA Os bordões são diversão à parte. Na briga pela freguesia, pode-se ouvir verdadeiras pérolas do humor mais brasileiro.
Livros:
Feiras e Mercados Brasileiros, Roberto de Guglielmo e textos de Ciça Fittipaldi, Editora Fólio
Por uma Gastronomia Brasileira, Alex Atala, Bei
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