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Imagine a seguinte cena: numa segunda-feira, você não ouve o despertador e acorda atrasado. Sem tomar café, veste-se em cinco minutos, entra no carro e dispara rumo ao trabalho. Em um sinal vermelho, uma mulher bate no vidro e pede um trocado, qualquer trocado. Apesar de notar duas moedas perdidas no bolso, você responde que não tem dinheiro e engata a primeira. Enquanto você pisa no acelerador para arrancar novamente, a pedinte dispara uma bênção: "Vá com Deus, meu filho". As moedas parecem queimar no seu bolso enquanto você acelera. Chega ao trabalho com meia hora de atraso. Seu chefe está ocupado com alguma tarefa urgente e ignora seu bom-dia. Você pensa que é melhor chegar mais cedo amanhã, ou ele irá substituí-lo por alguém mais pontual.
A falta de consideração com a senhora que pedia esmola e o desleixo com o horário fazem com que você se sinta duplamente culpado. Se tivesse acordado mais cedo e entregue as duas moedinhas, agora não estaria tão angustiado enquanto organiza as tarefas do dia. Definitivamente, a semana podia ter começado melhor. Mas... espere um segundo. Quem disse que você tinha a obrigação de dar uma esmola enquanto esperava o sinal abrir? Afinal, se as moedas são suas, você tem o direito de gastá-las como bem entender. E quem enfiou na sua cabeça que o trabalho é tão importante que não admite um atraso de meia hora - mesmo quando o seu chefe parece não dar bola para isso?
Para começar a esboçar algumas respostas, vamos fazer uma rápida viagem rumo ao passado. Há pouco mais de 2 mil anos, nasceu um homem que inspirou o surgimento de uma nova religião no mundo. Sim, estamos falando de Jesus Cristo.
Desde então, muita coisa foi escrita sobre ele. Recentemente andam até procurando provas arqueológicas para confirmar o que está escrito na Bíblia. Mas, nesta reportagem, pouco importa se as palavras atribuídas a Jesus foram de fato pronunciadas por ele, se são uma interpretação do que ele disse ou se foram inventadas por alguém. O que interessa é que essas mensagens chegaram com força aos dias de hoje. Atualmente, mais de 2 bilhões de pessoas, ou um terço da população mundial, acreditam nelas. Você pode não ser católico, protestante, ortodoxo ou de qualquer outra fé cristã. Pode não acreditar que Jesus tenha existido. Pode até ser ateu. Tanto faz: mesmo assim, o cristianismo interfere no seu dia-a-dia. Isso acontece porque a fé judaico-cristã é um dos pilares do mundo ocidental, ao lado da cultura greco-romana.
No total, são mais de dois milênios que se misturaram no liquidificador da história para formar o que somos hoje. Do lado grego, herdamos um padrão de pensamento que desaguou na ciência contemporânea - ou, se você preferir, no nosso jeito racional de enxergar e entender o mundo. Dos cristãos, que por sua vez beberam na fonte do judaísmo, incorporamos ensinamentos morais e religiosos que, de tão enraizados, parecem ser universais. Mas não são.
Seria, mas não é. Afinal, você nem sempre reserva parte do seu salário para dar aos pobres, mesmo quando sobra dinheiro no fim do mês. E aí entra outro valor essencial do cristianismo.
Várias religiões narram a origem do homem ou do Universo como um evento traumático que causou muito sofrimento. No cristianismo não é diferente. No primeiro livro do Antigo Testamento, o Gênesis, uma travessura do casal que desfrutava do Paraíso terminou em uma grande encrenca. Adão e Eva desobedeceram uma ordem expressa de Deus e foram expulsos do Éden. Mas quem recebe o castigo até hoje é a humanidade. Você não cometeu o pecado original, mas, como ninguém é de ferro, já deve ter aprontado algumas desde que se entende por gente. E, em maior ou menor intensidade, sente-se culpado por esses grandes ou pequenos pecados. Mesmo que seja ateu, pois até quem nega o cristianismo é influenciado por seus valores.
A sociedade ocidental não herdou a culpa apenas do cristianismo. De um modo ou de outro, quase todas as religiões impõem algumas regras aos fiéis. Sem essas normas, não há como garantir que os seguidores deste ou daquele credo vão ficar na linha. E você sabe: nós só seguimos as regras quando sabemos que vamos sofrer as conseqüências dos nossos atos. Tudo bem, vai longe o tempo em que os hereges eram lançados na fogueira, mas a chama da punição persiste, pois ainda nos acusamos pelas atitudes que consideramos negativas.
Seria a culpa, então, um mecanismo universal? Não. Algumas crenças lidam melhor com os erros. O hinduísmo, por exemplo, interpreta os tropeços do cotidiano de forma mais otimista. "O erro faz parte das limitações da vida, é uma situação natural. Por isso, a culpa não faz muito sentido na cultura hinduísta", afirma Carlos Eduardo Barbosa, professor do Instituto Narayana, em São Paulo. Em vez de acalentar a culpa, a opção é tentar descobrir a origem do problema para aprender a lidar melhor com as falhas naturais do comportamento humano.
Essa relação utilitária com a natureza explica boa parte dos dilemas que enfrentamos hoje. A água, por exemplo, é um bem cada vez mais escasso. Em prognósticos sombrios, os ambientalistas afirmam que o mundo sofrerá uma escassez terrível nas próximas décadas. Mas basta caminhar pelas ruas de qualquer cidade brasileira no verão para perceber que o ser humano parece não levar muito a sério essa ameaça. Enquanto as represas esvaziam, nós continuamos lavando as calçadas com água potável. Você pode achar que desperdiçar água é errado, que é ambiental e politicamente incorreto, que é uma burrice sem tamanho. Mas convenhamos: se fosse pecado, a natureza estaria mais preservada. "O homem branco não entende o nosso modo de viver. Para ele, um torrão de terra é igual ao outro. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la ele vai embora", disse em 1855 o cacique Seattle em sua carta ao governo dos Estados Unidos, que queria comprar suas terras. "Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós?", escreveu o cacique. Para o chefe índio, negociar sua terra era como um católico vender Nossa Senhora.
A cena final do polêmico filme
A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, mostra um ato de perdão extremo. Enquanto Jesus agoniza na cruz, ele tenta aplacar a ira de Deus pedindo ao Pai que perdoe aqueles que o condenaram, um gesto primordial que nos influencia até hoje. Quase nunca somos capazes de oferecer a outra face ao inimigo que nos ameaça, mas nos esforçamos para ignorar as pequenas agressões do dia-a-dia em nome da boa convivência. "O perdão é um valor utópico que o cristianismo ajuda a manter no Ocidente", afirma o padre e teólogo Antonio Manzatto, da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo.
Utópico, sim. Afinal, vivemos em uma era de intolerância. Os últimos desdobramentos das ações dos Estados Unidos no Oriente Médio são bons exemplos. Um país que se diz cristão até as últimas conseqüências e que faz questão de estampar sua fé nas próprias cédulas - cada dólar traz a frase "nós acreditamos em Deus" - persegue implacavelmente um inimigo mais fraco. E faz questão de dizer que representa o lado bom de uma guerra que, no fundo, só tem vilões.
Esses cacoetes da linguagem verbal podem ser compreendidos de duas formas. Uma delas não leva em conta o conteúdo religioso das frases que deixamos escapar de vez em quando. "As palavras parecem conter uma mensagem religiosa, mas no fundo são restos sem substância", diz Luiz Felipe Pondé. Dois ou três séculos atrás, dizer "Graças a Deus!" fazia parte de um contexto espiritual. Hoje virou um clichê, uma muleta verbal para exprimir um sentimento de alívio.
Os ditados podem ser usados fora de seu contexto religioso, mas ainda assim devem ser compreendidos como um recurso importante de transmissão de valores cristãos. "A cultura é tão eficaz como meio ambiente psicológico que Deus acaba se fazendo presente nos mínimos detalhes do nosso cotidiano. Os provérbios são um canal para uma sabedoria muito arcaica", afirma o comunicólogo Norval Baitello Jr., da PUC de São Paulo. Em outras palavras, as frases prontas que usamos em qualquer conversa informal não recorrem ao nome de Deus em vão. É justamente o contrário: em sua simplicidade, elas ajudam a manter viva a moral cristã.
Valores e símbolos do cristianismo estão presentes em toda parte. Dentro de uma igreja ou numa conversa informal com os amigos, eles entram em nossas vidas sem convite. Por um lado, essa ligação profunda com os ensinamentos cristãos pode ser compreendida como uma forma de alienação: se eles foram impostos por uma força superior, nós, simples mortais, não devemos questioná-los, apenas segui-los. Mas a questão pode e deve ser vista de outra forma. No fundo, o homem precisa de padrões de comportamento. Se é difícil viver em harmonia com valores como a caridade, a culpa e o perdão, tente imaginar como seria o mundo sem eles. Pensando bem, é melhor nem imaginar.
De novo, não importa se você acredita ou não na mensagem cristã. O fato é que você foi criado imerso nos valores dela. Para o bem ou para o mal, esses valores se impregnaram na sua existência e não há como removê-los. "O que constituiu o homem na sua história é fundamental como esteio para o seu presente. No momento em que cortamos as próprias raízes, deixamos de receber alimento para a nossa existência", diz Norval Baitello Jr.
O que fazer então? A solução é mesmo essa que você está fazendo: conhecer melhor a origem de seus valores e aprender a conviver com eles.
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