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Ainda não tinha cansado de fazer piadas sobre o Jeff quando aconteceu comigo. Esse meu amigo subiu no telhado para ajustar a antena e quase precisou dos bombeiros para tirá-lo de lá. Uma pinçada no meio das costelas surgiu em um movimento brusco, e ele passou duas semanas de molho em casa. Cá entre nós, nada melhor para os amigos rirem. Só deixei de ver graça na situação quando minhas costas também chiaram - estava na mesma situação dele, em atividade sedentária e postura duvidosa em frente ao computador, por longas jornadas diárias.
Dia após dia, semana após semana, fui sentindo aquela dor aumentar. Quando finalmente decidi procurar alguém para apertar minhas costas, achei que uma, no máximo duas massagens já resolveriam. Na verdade, foram dois anos aprendendo a sentar novamente, a apoiar melhor os pés no chão, a ficar em pé com a coluna encaixada no lugar certo, sem falar nas muitas, mas muitas massagens para reordenar toda a minha cadeia muscular, do pescoço até os pés. Foi uma trabalheira danada despertar meu corpo. Porque, com o toque, você não sente só sua pele, seus músculos, seus ossos e nervos. Sente o seu contorno, passa a ter noção da casa onde você mora, a vida que pulsa em cada célula. Não é de se espantar que a procura pela massagem esteja em voga nos Estados Unidos, na Europa e nas grandes metrópoles do Brasil - sem falar no Oriente, onde é moda há uns 6 mil anos.
Cada sessão dura, em média, uma hora. Nesse período, a mão do massoterapeuta - nome erudito do massagista - pressiona suas costas, pescoço, ombros, braços, mãos, dedos, nádegas, coxas, panturrilhas, cabeça e até sobrancelhas. Empurra sua perna para um lado, para outro. Te põe de bruços, te vira para cima. Aperta tudo.
Ao final, uma sensação de leveza, de estar novo em folha. Inegável, é um presente - há quem dê sessões aos amigos em aniversários!
Mas a massagem não é uma solução fácil. Quer saber por quê? Porque todas irão propor que você entre em contato não só com seu corpo, mas com tudo que está guardado nele. A dor no meio das costas, por exemplo. Ela pode ser causada pelo pescoço, que está muito pra frente, sobrecarregando a coluna cervical. O pescoço projetado para a frente é um erro de postura que, independentemente de sua história, pode ser interpretado como excesso de ansiedade, idéias à frente dos fatos, falta de contato com o hoje. Para resolver a dor, só vivendo mais no aqui e agora.
Passei quatro dias experimentando todo tipo de massagem - imagine o doce sacrifício - e percebi que alguns processos são propositadamente longos, planejados para mexer com calma em sua estrutura. Isso para lhe dar tempo de assimilar as mudanças, de aceitá-las e, o mais importante, de querê-las. "Meu trabalho vai até onde a pessoa permite, nem mais nem menos", diz Beatriz Whitaker, terapeuta de rolfing, uma técnica de massagem que surgiu no século 20 (a partir da página 24 você encontra mais informações sobre este e outros tipos de massagem). "Porque o que importa é caminhar junto, trabalhar junto."
Na Grécia antiga, o pai da medicina, Hipócrates (470-410 a.C.), utilizava fricções no corpo para melhorar a circulação sanguínea de seus pacientes. Nessa escola ocidental, estruturada na anatomia humana, todas as conexões musculares com os ossos e órgãos são revistas. Afinal, não dá pra pensar em aliviar a freqüente tensão dos ombros sem, muitas vezes, alongar as panturrilhas.
E vale muito repensar sua relação com a gravidade - é provável que você se lembre. aquela força que vai nos empurrando para o chão e pressionando todo nosso esqueleto, até o ponto do desgaste. A gravidade está presente em qualquer ação que se faça, por menor que seja.
Existe, é claro, uma sintonia - ou não - entre você, seu desconforto, seu problema e a massagem ideal, o método, a técnica, o jeito do terapeuta. Além disso, algo que se pode sentir na pele: para cada necessidade, um jeito e uma combinação de tocar. Pode-se sedar ou energizar. Usar um dedo só, ou vários, a mão aberta ou fechada. Vale a palma da mão, o dorso, o punho fechado, os cotovelos e até os pés. Agora, a escolha de qual técnica é melhor para seu problema, isso é subjetivo, é relativo, misterioso. Mas, é claro, rastreamos algumas pistas e agora vamos a elas.
Relaxamentos profundos, bastante indicados para excesso de trabalho e estresse - você também deve saber do que estou falando. - podem ser alcançados por meio da reflexologia e do watsu. Para aprender a fazer em si mesmo, do in. Para aplicar nos bebês e filhos pequenos, a shantala oferece ensinamentos simples e efetivos.
Experimente. Quem se toca e toca os outros adota seu corpo, com alma e tudo. E entra em contato com o que está além, para além das suas mãos, para além de você.
O constrangimento inicial - recomendo a você ir com sua melhor roupa íntima, para evitar um vexaminho - demorou um pouco a desaparecer, mas à medida que a terapeuta me empurrava para vários lados, alongando bem meu corpo, e depois que ela literalmente subiu com os pés em minhas costas e, com eles, pressionou todos os espaços tensos entre minhas costelas, relaxei. Qualquer um relaxaria com aquilo.
Dentro de uma medicina que indica dietas, remédios de ervas e meditação, a massagem ayurvédica é uma técnica por vezes vigorosa, estimulante, que libera as toxinas presas aos músculos. Traz calor ao corpo, alinha a postura.
Essa ciência da vida começou na Índia, há mais de 6 mil anos. A visão ayurvédica compreende a existência de cinco elementos - o espaço, o ar, o fogo, a água e a terra - combinados em três doshas, ou humores, e que cada um de nós se encaixa em um desses humores (entenda mais a medicina ayurvédica revisitando a edição 5 de vida simples). Assim, a essência escolhida - a massagem ayurvédica usa e abusa de óleos aromáticos e extratos de ervas medicinais - irá combinar com o seu tipo de humor.
Maurício Stellato, que se submete a essa massagem há três meses, teve uma melhora tão radical nas dores das suas costas que a transformação mais marcante em sua vida foi exatamente essa: "Meu humor melhorou radicalmente". E isso, como sabemos, faz toda a diferença.
O do in é uma técnica milenar chinesa. No Japão, ganhou o nome atual, que significa "o caminho de casa" - casa é o corpo, morada do espírito e do chi, a energia vital. Seu primeiro e mais corriqueiro uso é familiar, apesar de ter sido popularizada como sinônimo de automassagem. Faz sentido. Outro dia, ouvi de uma amiga que ela e a irmã diariamente faziam do in no pai, quando este lutava contra o câncer. "No final, a dor quase desapareceu", diz ela.
Fácil de aplicar, o tratamento no do in baseia-se na pressão com o polegar sobre os centros ou pontos de captação e armazenamento de energia do organismo. "Ao conhecer esses pontos, você pode dar uma geral em toda a energia do corpo e fazer, com as próprias mãos, a manutenção diária de sua vitalidade", diz Juracy Cançado, o introdutor do do in no Brasil.
Aprender do in exige fazer cursos ou mergulhar em livros que mostram os inúmeros pontos. Na página ao lado, porém, você encontra algumas massagens rápidas que podem ser úteis.
A terapeuta de reflexologia segue ponto a ponto, hora pressionando, hora deslizando, passando creme. Cada centímetro do pé vai relaxando e, sim, é verdade, o corpo derrete junto. Em poucos minutos dormi profundamente no sofá. "Nos pés encontram-se áreas que refletem todos os órgãos e glândulas do corpo. É muito importante tratar bem deles, pois são a base do seu eixo vertical, é a direção da sua vida", diz Angela.
Foi baseada na medicina chinesa tradicional que a massagista americana Eunice Inghan desenvolveu um método de massagem só com pressões puntiformes sobre os pés. Para quem não gosta de expor o corpo, esse é o toque. E, para quem se candidatar, um lembrete: sempre é bom ir à sessão com seus pés bem cuidados, evitando uma saia-justa.
Achei que ia ter uma sessão de "abrir o coração", "soltar as emoções" (minha amiga Juliana me contou assim sua experiência). Cheguei animadíssimo. Beatriz Whitaker, terapeuta rolfista, estava na grama, esticando o corpo. Daí que conversamos sobre a gravidade por quase duas horas em um banquinho ao lado do gramado.
Ali, enquanto anotava, comecei a sentir insistentes dores nos ombros após a primeira maratoninha de conversa. Na hora, Bia me mostrou que eu estava sentado de forma tal, e só ao mudar a maneira como apoiava os pés no chão tive a tensão de meus ombros imediatamente aliviada.
O rolfing também é conhecido por demandar um mínimo de dez sessões. É uma massagem profunda, que libera muitas tensões acumuladas. "Tocamos as fáscias, uma membrana que nos envelopa desde as fibras musculares até os ossos. Então, quando você as toca, você devolve a elasticidade interna, que nos é natural", afirma Bia.
Antes de ir, outra dica: olhar pra frente enquanto andamos. Parece simples? Observe alguém que anda olhando para baixo. Dá para ver seu pescoço sendo puxado, suas costas se curvando pra frente. Imagine a gravidade acertando essa estrutura torta, tensionando tudo mais ainda.
"Mostro as possibilidades de uso do corpo humano, como podemos usar esse veículo de forma menos desgastante, mais natural. A postura e a locomoção corretas irão tirar as 'mochilas' extras, limpar os pesos do corpo." Pensei que ia abrir o coração, mas acabei ampliando minha visão, passei a olhar a vida de frente.
A fisioterapeuta Samira Zahr massageou um paciente na minha frente - aliás, mais um aturdido jornalista que travou as costas. Ficamos conversando enquanto os exercícios de postura eram penosamente executados, ele mesmo curioso em saber o que estava acontecendo com seu corpo e qual o significado dos toques.
"Antes de relaxar os músculos e nervos, a RPG oferece estrutura, firmeza. O principal é ensinar a pessoa a se manter, a se colocar de forma correta, para que novas lesões não aconteçam", diz Samira. "Não adianta aliviar as dores de alguém se por hábitos posturais, sejam físicos ou emocionais, essa pessoa continua a machucar seu corpo. Ela precisa adotar seu corpo e cuidar sempre dele."
Uma parte dos fisioterapeutas também utiliza a técnica GDS, que são as iniciais do fisioterapeuta e osteopata belga Godelive Denys-Struyf, responsável por seu desenvolvimento. O método de trabalho criado pelo especialista nasceu de sua observação de como os indivíduos utilizam o próprio corpo para realizar diferentes movimentos.
Na Índia, a shantala é parte da cena familiar: todos praticam. Desde o momento do nascimento, massageia-se o bebê com óleo, inclusive quando ele chora. A massagem é feita com as mãos e segue 20 movimentos definidos. As mães sabem que a ação das mãos aumenta a circulação sanguínea e a flexibilidade do bebê. Bom para as crianças, que recebem a massagem todos os dias, até completarem 3 anos de idade. Depois, irão receber shantala uma ou duas vezes por semana até os 6 anos.
Essa tradição passa de mãe para filho, de mulher para mulher da família. (No Brasil, a Natura desenvolveu uma linha de produtos para a mãe fazer shantala no bebê.)
Impossível não dizer que shiatsu dói bastante. Também impossível não esclarecer que o alívio é proporcional às dores. Passado o furacão, sentimo-nos nas nuvens, de tão leves. Um dos momentos mais felizes da massagem é quando se encaixa o pescoço em um buraquinho da maca, e ombros e nuca são massageados com certo vigor. Relaxa, e muito.
Mas o shiatsu não precisa sempre de maca, pode ser aplicado no chão ou no tatame. "O coração do shiatsu é como o puro amor materno. A pressão das mãos faz fluir a fonte da vida", diz um antigo provérbio.
Até hoje é possível sentir uma atmosfera espiritual, luminosa, que cerca essa prática. A medicina tradicional tailandesa desenvolvida nos wats - ou monastérios - compreende também remédios nutricionais, fitoterápicos, banhos e práticas espirituais.
Essa massagem, até há bem pouco tempo, era praticada somente por alguns monges budistas. "Ao atender a população de suas comunidades, os monges na verdade praticavam o toque da compaixão. Esse é o sentimento da massagem tailandesa", afirma Javier Pizarro, terapeuta thai.
Por isso, cada estímulo tem um porquê. Cada segundo de contato em um ponto tem um propósito específico no tratamento. "A massagem é uma receita, feita com base em um dignóstico. Ela é pensada e feita para tocar sua energia e afinar seu instrumento", diz Alberto Fiaschitello, terapeuta de tui ná. Em geral, os tratamentos são criteriosos e mudam conforme a necessidade do paciente.
O corpo desliza, vai pra cá, pra lá, parece ser feto, parece voltar ao útero. Com os alongamentos, ocorrem estímulos aos canais de energia.
A verdade é que a sessão, pra mim, trouxe um choro nos olhos, daqueles que dão um sorriso no canto da boca. Não dá nem vontade de contar a história do watsu, apenas lembrar daquela flutuação. Sem dúvida, a grande massagista aqui é a água.
"Mude de sapato no meio do dia, para não sacrificar seus pés - eles não foram feitos para ficar abafados muito tempo. Se isso não for possível, tire os sapatos por uma meia hora. Na hora de deitar, com um creme hidratante, massageie todo o pé. Aperte a palma, os dedinhos, entre eles. Ajuda a descansar e dormir melhor."
Ângela Amorim, reflexologia
"Durante o dia, preste atenção em como você está sentado. Ajuste o corpo do peso em cima dos ísquios - aqueles ossos que sustentam seu corpo quando você se senta - e mantenha a postura correta. Apóie os pés completamente no chão. Isso irá lhe passar firmeza e você vai cansar menos."
Beatriz Whitaker, rolfing
"Aprender a respirar usando o abdômen é importante.
Procure levar o ar até o abdômen. Esse movimento do diafragma provoca a massagem em todos os órgãos internos, o que traz inúmeros benefícios. Sua mente se tranqüiliza, a circulação melhora, o processo digestivo flui e a ansiedade diminui."
Alberto Fiaschitello, tui ná
Da mesma forma como ao encontrar alguém você intuitivamente já gosta da pessoa ou não, isso vai valer para o terapeuta. Você pode até se enganar em sua percepção, cometer uma injustiça, mas eis um caso no qual é bem bom seguir o coração. Porque, durante a massagem, não dá pra ficar desconfiado, inseguro, pois isso pode criar uma barreira, tirando a naturalidade dos gestos, do contato do massagista. Uma linha fina, um caminho estreito. Com o tempo, o terapeuta pode se tornar um amigo, um confidente, um conselheiro: ele vê em nosso corpo uma história de vida e também o jeito como vivemos hoje.
• Instituto Brasileiro de Terapias Ayurveda, Rua Dr. Pereira dos Santos, 35/604, Rio de Janeiro (RJ)
fone: (21) 2572-3537
site: www.ibrata.com.br
fisioterapia
• Samira Zahr, Rua Prof. João Arruda, 149, São Paulo (SP)
fone: (11) 3868-3188
• Puck Pádua, Rua Almirante Gomes Pereira, 8, Rio de Janeiro (RJ)
fone: (21) 2295-2877
rolfing
• Beatriz Maria Whitaker Pacheco, Rua Itapeaçu, 108, São Paulo (SP)
fones: (11) 3031-6172, 9816-0502
• Associação Brasileira de Rolfing, Al. Casa Branca, 600, São Paulo (SP)
fone: (11) 3887-0670
shiatsu
• Luiza Satu
fones: (11) 3037-7643, 3037-7593
www.luizasato.com.br
• Corpo Zen, Rua Joana Angélica, 116, Rio de Janeiro (RJ)
fone: (21) 2521-9897
tui ná
• Alberto Fiaschitello, Marcelo Jovchelevich, Al. Tietê, 602, São Paulo (SP)
fone: (11) 3081-7350
• Associação Tai Chi Pai Lin, Rua Fradique Coutinho, 1434, São Paulo (SP)
fone: (11) 3031-1324
•
Nana Liu, (11) 5072-2235
do-in
• Juracy Cançado
fone: (21) 2250-1945 (com Fátima Borges)
f_borges@terra.com.br
reflexologia
• Ângela Amorim, Rua Saint Hilaire, 118, ap. 3, São Paulo (SP),
fone: (11) 3887-1153
• IOR, Al. Santos, 455, conj. 401, São Paulo (SP)
fone: (11) 3266-9101
shantala
• Shantala, Frederick Leboyer, Editora Ground
thai
• Javier Pizarro Concha - Estação Orbitao, Rua Arapiraca, 360/362, São Paulo (SP)
fone: (11) 3814-2445, 9199-5925
site: www.estacaoorbitao.com.br
watsu
• Escola Takeda, Rua Heitor Penteado, 777, São Paulo (SP)
fone: (11) 3872-9088
• Magma Núcleo Terapêutico, Rua Aspicuelta, 227, São Paulo (SP)
fone: (11) 3816-5816
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