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Quem é primitivo?

Viver em comunidade, desfrutar o presente e nem saber o que é estresse. O cotidiano de uma tribo xavante tem muito a ensinar aos caras-pálidas civilizados

por Erika Sallum | foto Rosa Gauditano

Lá na aldeia xavante onde mora, o Paulo tem lugar de destaque. Ele é cacique. Mas é difícil saber disso se ninguém contar, porque o Paulo não ostenta nenhum sinal especial. Na sua aldeia, a Wederã, no interior do Mato Grosso, o Paulo se veste como os outros, vive como os outros. Nenhuma distinção, nem mesmo o sobrenome, que lá ninguém tem, ou por ser mais velho que os demais (ele nem sabe a própria idade). Se conhecesse o Paulo, você podia até achar que a vida dele é digna de um cacique. O sujeito faz as coisas quando tem vontade. Come quando está com fome, dorme quando está cansado, se diverte quando acha que é a hora, enfim, vive tranqüilão, com uma expressão no rosto que lembra aquelas estátuas de Buda. Depois de alguns dias convivendo com o Paulo e sua tribo, eu, já ansiosa com tanta serenidade, perguntei a ele se não havia nada que o deixasse estressado. Sua resposta não poderia ser mais desconcertante. "Não entendo direito o que é isso. Compreendo o significado da palavra, já me explicaram, mas não consigo saber o que é exatamente." E não é só ele. Lá na aldeia, a vida do Paulo não é exclusiva do cacique, não. Todo mundo vive assim. Para eles, isso é a vida.

A aldeia Wederã abriga pouco mais de 50 pessoas, em um dos últimos trechos intactos de cerrado do Brasil. O primeiro contato com os brancos (warazu, na língua xavante) foi há apenas 60 anos e os mais velhos inclusive se lembram do encontro. Mas, apesar das havaianas nos pés e dos shorts Adidas, Paulo e sua gente preservaram sua vida de índio. Pouquíssimos falam português, os antigos rituais são realizados do mesmo modo e, o mais importante, todos conservam o jeito de ser indígena que emocionou o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. No clássico Tristes Trópicos, ele descreveu assim seu encontro com os nhambiquaras: "Pressentimos em todos uma imensa gentileza, uma profunda despreocupação, uma ingênua e encantadora satisfação animal e, reunindo esses sentimentos diversos, algo como a expressão mais comovente e mais verídica da ternura humana". Bonito, né?

Você deve estar se perguntando o que, afinal, esse papo de índio tem a ver com você. Muita coisa, se soubermos olhar com sensibilidade e sem preconceito para a vida desses povos. Calma, ninguém aqui está sugerindo que você abandone sua casa e vá viver no meio da floresta de short Adidas. Vida de índio não é a melhor coisa do mundo. Não para nós, que nascemos e crescemos na cidade e gostamos dos confortos que a urbanização oferece. Mas basta acompanhar um dia da tribo, a vida comunitária e as brincadeiras das crianças, para ver que eles preservaram um jeito de ver a vida que parece atraente para qualquer ocidental bem-sucedido.

Por que somos assim?
É preciso olhar bem lá atrás na história para entender como ficamos tão diferentes. Bem lá atrás, mesmo, 10 mil anos atrás, que foi quando a humanidade inventou a agricultura, começou a criar animais e passou a viver em cidades. Foram passos importantíssimos para a humanidade, com conseqüências fundamentais. "À medida que nos civilizamos, nos refinamos com o passar dos séculos, fomos nos afastando de nossa dimensão mais primitiva, de animais integrados à natureza. E a natureza, de mãe, passou a inimiga", afirma Eduardo Navarro, professor de literatura brasileira e língua tupi da Universidade de São Paulo. "Isso os índios jamais perderam." Esquecemos que somos bichos, passamos a acumular riquezas, inventamos a propriedade privada, a divisão do trabalho, as classes sociais. E, principalmente, trocamos de vez as pequenas comunidades, onde todos se protegiam e comungavam dos mesmos ideais, por sociedades maiores, com visões e "tribos" fragmentadas.
Um por todos
"Sem dúvida tornamo-nos mais solitários", diz Eduardo. O modelo de família criado na Revolução Industrial, há 250 anos, e que prevalece até hoje, é extremamente reduzido, composto no máximo de pai, mãe e dois filhos. "As cidades abrigam um exército de seres isolados. Só que o homem não nasceu para viver sozinho." Nada mais distante da tribo Wederã. Ali, todos estão pela comunidade. E a comunidade está por todos. Todo dia, ao amanhecer e ao entardecer, os xavantes se reúnem para conversar. Nessa espécie de terapia em grupo, chamada warã, eles debatem os problemas do cotidiano. Está com raiva de alguém? Sua casa precisa de reparos? A mulher anda muito briguenta? Ninguém arreda o pé do centro da aldeia enquanto não encontrar as melhores soluções. Sem nunca terem ouvido falar em Freud, sacaram há muito tempo os benefícios de um bom diálogo. Nem os forasteiros escapam: qualquer um que chega de fora tem de se apresentar e contar alguns detalhes de sua história pessoal. "O warã é a sustentação da tribo. Não existe rancor, picuinha, pois tudo ali é discutido", diz a fotógrafa Rosa Gauditano, autora das imagens que ilustram esta reportagem.
A noção de sucesso
Rosa passou dez anos acompanhando o dia-a-dia de várias tribos brasileiras, e diz que acabou descobrindo que sucesso é mais que um trabalho bem feito, reconhecido e recompensado. A vida, diz ela, é mais simples do que imaginava. "Meu trabalho era tudo para mim, mas entendi com eles que não é preciso muito para ser feliz. Apenas ter amigos, comida, amor e paz de espírito." Não há noções ocidentais e capitalistas como triunfo, competição e sucesso. É verdade que essas metas motivaram grandes avanços na nossa história. Mas não dá para negar seus efeitos colaterais, como a ansiedade, o estresse e uma lista infinita de doenças relacionadas. Cada grupo indígena, obviamente, possui seus próprios costumes e tradições. Mas de modo geral vivem em comunidades onde prevalece a igualdade. Exceto por algumas lideranças políticas, como caciques e pajés, ninguém é mais importante. "No nosso mundo, não tem essa de um ser mais rico. Para quê? Ter riqueza e ficar sozinho? Que besteira", diz Siridiwê, xavante e diretor da ONG Instituto das Tradições Indígenas, de São Paulo. Também não há a idéia de trabalho como conhecemos. Trabalha-se, claro, mas pela sobrevivência, isto é, por comida e abrigo. Em Wederã, homens e mulheres desempenham funções distintas, mas de igual mérito. Não se acumulam ou se guardam objetos e alimentos para o futuro. Quando sentem fome, já que não têm o hábito de plantar, partem em busca de caça no cerrado. Se estão satisfeitos, deitam-se à tarde nas portas das casas feitas de folhas de piaçaba e passam horas a conversar e rir das brincadeiras das crianças. Para mim, foi difícil entender como um povo sem posses pode ter tão tranqüilo. Preguiçosos, vagabundos? Que nada. "Enquanto sentimos um constante e opressor medo do tempo e do futuro, os índios encaram a vida com menos angústia, com desprendimento e desapego. Isso é algo valioso para se aprender", afirma o professor Eduardo.
O tempo de cada um
Índios não possuem calendário. Não da forma como conhecemos, da folhinha que nos diz se hoje é quinta-feira ou domingo. Nem relógio. "Esse tempinho nosso de cada dia não existe para eles", afirma Waldemar Ferreira Netto, professor da USP especialista em educação e línguas indígenas. "Marcam o tempo de forma muito mais ampla, de acordo com os ciclos da natureza, do Sol ou da Lua." Para os xavantes, que habitam uma região com longos períodos de seca e de chuvas, a chegada de gafanhotos e passarinhos aponta quando as estações estão mudando. Siridiwê, que mora em São Paulo há alguns anos, confessa que não entende como nós, seres urbanos, não conseguimos enxergar os dedos da natureza em nosso cotidiano. "Se você tem uma reunião importante, mas chove e tudo fica alagado, você xinga o mundo. Caramba, a natureza está dizendo que não dá, está chovendo. A única solução boa é se manter calmo." Nem as grávidas xavantes sabem ao certo quando seus bebês irão nascer. "Vai nascer quando chegar a hora", responde, tranqüila, uma índia com um enorme barrigão a uma warazu de relógio no pulso e ansiedade na alma. Como então sabem o momento em que um jovem tem de ser iniciado nos rituais de passagem para a vida adulta? "Não importa a idade. Ele deve estar maduro, independentemente de ter 13 ou 18 anos", afirma Paulo. Por não terem escrita e guardarem as tradições apenas oralmente, os índios dedicam muito respeito aos mais velhos. No warã dos xavantes, quem fala primeiro são os anciãos, que desempenham o papel de conselheiros da aldeia, recebem cuidados e atenção especiais, assim como as crianças. Mas isso não significa superproteção. As crianças circulam em grupos só delas por toda a aldeia. Quando brigam, os pais geralmente deixam que resolvam sozinhas seus conflitos, para aprenderem a amadurecer por si mesmas. Mas ensinam e cuidam dos rebentos de perto. "Infelizmente, com nossa vida agitada, somos obrigados a nos afastar de nossos filhos. Quando têm problemas, levamos ao psicólogo para ele, sim, resolvê-los", diz a fotógrafa Rosa. "E perdemos uma das mais belas preciosidades da vida, que é ver as crias crescerem." Sem riquezas, sem calendário, sem sobrenome, sem preocupação com o amanhã. Com esse estilo de vida meio zen, obviamente com problemas e falhas como qualquer outra organização social, o que significa felicidade para um índio? Ou melhor, o que é sucesso? "Não existe para nós esse conceito de sucesso, de ter de conseguir coisas e sentir-se acima dos outros", afirma Paulo. "Sucesso é ter comida. Poder chegar à velhice com histórias para repassar aos mais novos. Viver em paz na aldeia. Isso basta para a gente ser feliz", disse-me ele. Depois dessa frase dei por encerrada minha expedição à aldeia. Os xavantes já tinham dividido comigo o que tinham de mais precioso.
Para saber mais
• Tristes Trópicos, Claude Lévi-Strauss, Companhia das Letras
• Visão do Paraíso, Sergio Buarque de Holanda, Brasiliense
• Raízes do Povo Xavante - Tradição e Rituais, com fotos de Rosa Gauditano, Studio R

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