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Há milhares de anos, nossos antepassados tiveram de criar uniões aos pares. Só assim os machos puderam partir com tranqüilidade para suas caçadas. É que só quando reconheceram quem era de quem na aldeia eles conseguiram dissipar o temor de que outro macho teria o atrevimento de aparecer enquanto estavam ausentes e se aproveitar da situação (diga-se, da fêmea alheia). Como bem observa o antropólogo inglês Desmond Morris, surgia, ainda nas cavernas, a obrigação de o casal se apaixonar e manter-se reciprocamente fiel. Morris é um craque em explicar o comportamento humano, e para isso utiliza teorias da biologia aplicadas aos animais. E o modelo daqueles primatas tem se mostrado muito útil até hoje.
A unidade beneficiava os descendentes. Um macho não precisava mais lutar contra outro para preservar sua herança genética e, ao fim e ao cabo, o papel de cada sexo se tornava mais diferenciado. Eis que evoluímos. E o casamento se viu diante de outros dramas. Aliás, para alguns amigos meus, casamento já é sinônimo de novela mexicana.
Fui conversar com pessoas que estão casadas (entre elas, algumas que se separaram e casaram outra vez) para saber como se mantêm fiéis aos velhos instintos de preservar a união. Queria encontrar maridos e mulheres, se não vivendo no nirvana, ao menos lidando bem com as tensões da vida a dois. Teve gente que se recusou a dar entrevista ("Ah, esse assunto, só entre quatro paredes").
Felizmente, encontrei as pessoas certas, muitas idéias e até algumas chaves do conhecimento para ajudar no sonho do casamento bom. Ninguém vai encontrar aqui, nem em lugar algum, uma fórmula mágica capaz de fazer a relação funcionar. Mas as sabedorias, os mitos, as estatísticas, assim como a leitura de algumas experiências que dão certo, poderão servir para alguma coisa, quem sabe até que a morte os separe.
A história nos ensina que essa índole romântica é na verdade a sensação que qualquer pessoa pode ter, mesmo estando casada, de se dar o direito de jogar tudo para o alto e partir para viver uma grande aventura se tiver essa oportunidade. É como se houvesse alguma coisa à nossa espera nos oferecendo o significado e a empolgação que faltam (ou estão acabando) no casamento.
Seguindo esse raciocínio, a relação a dois não deve ser, então, uma felicidade absoluta ou um inferno na Terra. É o caminho do meio. Por isso, não podemos permitir que nossos humores nos possuam. Por que quando isso acontece perdemos logo a capacidade de discernimento.
Veja o que escreve Johnson: "Quando o marido acorda com o 'pé esquerdo', a mulher pode-se perguntar o que foi que ela fez. E vai perguntar ao marido e ele, de mau humor, acaba achando que ela tem alguma culpa pelo que ele está sentido. A situação se agrava e surge um desentendimento".
Nessas horas, conforme Johnson, o melhor que a mulher tem a fazer é se recolher e esperar o marido voltar ao normal. O marido, por sua vez, fará um tremendo favor se for mais cauteloso, gentil e compreensivo quando vir um olhar angustiado na esposa. Mas nem tudo são flores. E só a paciência levará ambos a tal comportamento.
O que tiramos disso para nossas relações? Primeiro, que há dualidade no casamento. E nós todos só tentamos fazê-lo cor-de-rosa. Alegre e feliz. Ora, só quem nunca morou com outra pessoa (nem precisa ser casado, pode ser amigo, irmão, parente) imagina conseguir viver assim. Brigas, desapontamentos, ilusões e desfeitas fazem parte do jogo. E quem joga bem com elas joga bem com o casamento.
Foi assim com a aposentada Marynez Vidal, de 62 anos. Casou novinha, sonhando com um conto de fadas, na crença de que bastava considerar o marido um gato e a felicidade estava garantida. Separou-se 11 anos depois. Teve duas filhas. Foi ela quem deu um basta e foi tocar a vida.
Marynez esbarrou tempos depois com o primeiro namorado, o motorista João Oscalino Souza, de 61 anos. Ele também saía de um casamento de 20 anos. Marynez e João, já amadurecidos pelas primeiras experiências, resolveram tentar outra história de amor. Estão casados há 19 anos. "Para mim, não existe outra explicação: João é a minha alma gêmea", afirma Marynez. "Casamento é uma ligação espiritual que só o amor verdadeiro mantém", diz João.
Porque, ao enxergar isso, temos a oportunidade de construir uma relação nova, onde convivem um, o outro e os dois juntos. Só o amor conduz a esse processo, só ele leva a relação a outro estágio de consciência. E, no casamento, o amor deve ser compreendido como afeto e compromisso. Até amizade. Por sinal, em um dos ritos hindus do casamento, o noivo e a noiva juram solenemente: "Você será meu melhor amigo".
A bióloga Marta Ricoy, de 45 anos, durante a entrevista lembrou que no Oriente existe a expressão Anan Cara, que significa "alma amiga" (olha a amizade citada outra vez). "A Anan Cara é aquela pessoa com quem temos uma aproximação que permite o contato em diferentes níveis - físico, mental e espiritual", diz Marta, que também é professora de yoga. "A minha é o meu marido."
Marta Ricoy é casada com Agnaldo Alves, de 48 anos, e juntos viveram essa experiência. Moravam em Campinas, com os filhos, ele dando expediente em São Paulo. Aí, Agnaldo foi trabalhar em Curitiba. "Algumas amigas diziam que meu marido não passaria tanto tempo longe sem pular a cerca", diz Marta, que não deu bola para isso. Confiou e aceitou vê-lo só nos fins de semana.
Aí a situação inverteu: foram todos para o Paraná e Marta era quem ia e voltava, para não largar o emprego em Campinas. "Agora, eram meus amigos que perguntavam como eu aceitava essa situação", lembra Agnaldo. Casados há 25 anos, levaram a distância numa boa até conseguirem parar em São Paulo, todos juntos.
E a vida deles, a exemplo da vida de todo mundo, continua dando voltas. Há cinco meses, o casal perdeu o filho mais velho, de 25 anos. "O afeto que temos um pelo outro não permitiu que um de nós se recolhesse no sofrimento", diz Marta.
E, quando ele existe no casamento, o marido ou a mulher estão sempre encorajando um ao outro. Mesmo que um descubra os defeitos do outro - o que é certo acontecer -, não caem na tentação de criticar-se, optando por segurar as pontas. "Amar é saber falar e calar", diz a psicóloga Maria Angélica Sampaio, 49 anos, casada há 21 anos com o engenheiro Antônio Sampaio, 48 anos.
É preciso mesmo ter paciência, confiança e compreensão - e todos os casais que escutei concordaram com isso. Nesse ambiente, a vida a dois pode nos conferir ao menos uma grande surpresa: descobrir que não é nem tanto amor o que precisamos, nem nos sentirmos amados, mas sim ter coragem e determinação para amar. E sempre que possível, claro, não deixar a toalha molhada em cima da cama ou a roupa jogada no chão.
Conversei muito com alguns casais experientes. E falei também com a psicóloga Magdalena Ramos, que é professora do Núcleo de Estudos de Casal e Família da PUC de São Paulo, e com o psicanalista Eduard Tàpias, diretor do Centro de Psicanálise de Barcelona. Então cheguei a esta lista de sete mandamentos da união bem-sucedida, no melhor estilo "amar é". Leve em conta que há várias receitas para fazer um casamento dar certo ou errado, embora só as deste último caso funcionem sempre. Por isso, leia, passe o filtro, adapte à sua realidade, considere as imponderáveis contribuições do destino e boa sorte.
1. Falar e calar nas horas certas. Mais ainda, saber não perguntar quando já sabe a resposta.
2. Conhecer tão bem os defeitos e as qualidades do outro que é até capaz de esquecê-los quando é preciso.
3. Saber andar lado a lado, mesmo quando seu destino é diferente do destino do outro.
4. Ser capaz de dividir os sonhos de forma que eles deixem de ser "meus" e passem a ser "nossos".
5. Perder a noção dos dias da semana e das horas no relógio, mesmo que apenas por alguns instantes, quando estão juntos.
6. Surpreender o companheiro com presentes e mimos, sem data marcada nem hora certa.
7. Descobrir prazer nas coisas que se repetem todos os dias e temperar o relacionamento com humor.
A ciência prova coisas difíceis de acreditar. Depois de ouvir histórias tão intensas como a de Marynez e João, e tão sublimes como a de Marta e Agnaldo, é difícil conceber que não há mais paixão depois do quarto ano de relacionamento. Parece conversa de solteirão convicto, ou de mulher traumatizada por amores que não deram certo. Mas esta é a opinião de muitos psiquiatras brasileiros e estrangeiros. Um deles, o norte-americano James Leckman, da Universidade Yale, é especialista em buscar nos estudos biológicos e genéticos a explicação para distúrbios de sentimentos. Para ele, a mulher fica apaixonada por 36 meses, e o homem, por um ano e sete meses. Claro, é uma média, mas de acordo com Leckman quatro anos é o limite. Isso acontece porque a sensação de estar apaixonado só existe por causa da descarga de endorfinas e hormônios produzidos pelo organismo durante o sexo. Esse "orgasmo prolongado" nos faz sentir bem ao lado da pessoa por um período maior, mesmo depois da atividade sexual, e instiga a vontade de estar junto, nos faz sentir saudade. Só que depois de no máximo quatro anos, conforme Leckman, as células cerebrais já não respondem ao estímulo como antes. Sabe por quê? Porque ficam tolerantes àquela química do começo. E, como apenas 5% dos mamíferos mantêm relacionamentos monogâmicos, é nesse momento que as pessoas têm de decidir entre:
a) transformar a paixão em amor e seguir com a relação,
b) acabar o relacionamento quando a paixão der o último suspiro ou
c) buscar uma terceira pessoa que possa reativar a química de antes - só que aí avançando no território da infidelidade.
Ou seja, depois da paixão, vem a hora da verdade.
• Do Amor, Stendhal, Editora Martins Fontes Filosofia do Amor, Georg Simmel, Editora Martins Fontes
• História do Amor no Ocidente, Denis de Rougemont, Ediouro
• Homem Mulher - A Integração como Caminho de Desenvolvimento, Gudrun Burkhard, Editora Antroposófica
• O Macaco Nu, Desmond Morris, Editora Record
• Trilogia de livros He, She, We - A Chave do Entendimento da Psicologia Masculina, Feminina e do Amor Romântico, Robert A. Johnson, Editora Mercuryo
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