![]() |
![]() |
O professor entra na classe e a maioria dos alunos ignora (você já assistiu a uma aula da 7ª série, com adolescentes de 13 anos e aquela profusão de hormônios?). Aos poucos, todos vão sentando, mas logo as mesas são removidas, porque vai começar o estudo em grupo. Dois meninos teimam em ficar em pé no fundo da sala. Quando Antônio Fernando Jorge Piragino, o professor de história, começa a falar, um aluno dispara: "Tira o chiclete da boca!". (Você entendeu bem. Não foi o professor que disse isso para o aluno, foi o aluno que disse para o professor.)
Fernando vai em frente, como se nada tivesse acontecido. Fala beeeem alto, fazendo valer sua voz - bico, pra quem durante anos foi operador da bolsa. É o único jeito de esmorecer as conversas paralelas. Aos poucos, o assunto do professor começa a atrair a atenção da classe: ele propõe uma série de trabalhos sobre a cidade de São Paulo, com mapas, estatísticas, textos sobre os aspectos cultural e social da cidade e - surpresa - um passeio no Centro histórico! Os alunos que estão em pé resolvem pegar os livros e, aos poucos, a classe toda está envolvida em fazer cartolinas com recortes e textos.
Estamos na Escola Carlitos, em São Paulo, onde cada disciplina tem sua própria classe - ou "sala ambiente". Por isso, todo o material já está por ali, nem professor nem alunos precisam ir atrás. A turma ainda não está totalmente em silêncio, mas pelo menos já trabalha em conjunto. Há os que não participam, limitam-se a sentar junto dos outros e ficar olhando para o teto. Um desses se preocupa se vai ter prova. Vai! E na nota vão entrar itens como interesse, participação e pontualidade, cuidado com o material, cumprimento das lições e outros pontos, como o respeito com os colegas e o professor. Coitado do menino do chiclete.
Houve tempo em que um professor parecia mais um produtor de foie gras, que despeja milho na goela dos gansos para, com a superalimentação, obter a matéria-prima do patê. Da mesma forma, o "conteúdo curricular" - uma miscelânea de informações que em comum tinham apenas a falta de utilidade prática - era empurrado aos alunos, que observavam em indefeso silêncio.
Quantos afluentes de rios, quantas datas, quantos nomes absolutamente inúteis, quantos falsos heróis de índole exploradora. Com muita ou pouca variação, era assim a sua e a minha escola, caro leitor. Sobrevivemos. Decerto não é esse o modelo de ensino - e de professor - que queremos para nossos filhos.
Já o mau professor, diz o pensador português, é um oleiro, que vê a criança como um barro inerte e sem vida, que ele pode modelar como quiser. Muitas vezes na marra. Portanto, pensar sobre que tipo de escola e de mestre você quer para seu filho ajuda muito. Pois nela o estarão esperando professores-jardineiros ou professores-oleiros.
A segunda qualidade é complementar à primeira. "Depois de sonhado o projeto, a escola deve estar capacitada e preparada para ajudar o aluno a concretizá-lo", diz o educador. Ao colocar na prática seu sonho, o aluno ganha um presente adicional: a confiança em si mesmo - e isso é fundamental. "Estive em Santa Catarina e um professor de literatura me deu um exemplo bem vivo da concretização de um projeto", conta Rubem Alves. "Ele queria que os alunos lessem Machado de Assis, uma tarefa bastante ingrata nos dias de hoje. Propôs, então, que eles criassem vídeos com os personagens machadianos. Foi uma febre. Os alunos devoraram livros e livros do autor para poder realizar seus vídeos. E a escola ajudou a realizá-los."
Na Escola da Vila, em São Paulo, todo ano acontece o Festival de Poesia. Durante um mês e meio, todas as classes, do maternal ao ensino médio, estudam e discutem obras de vários poetas e fazem também suas próprias poesias. Funcionários da instituição e pais de alunos também participam (Median Áurea Trigo Costa, a telefonista da escola, já faturou o festival duas vezes). Levando em conta quanto os sonhos mobilizam as pessoas, é sempre bom perguntar sobre os projetos que a escola mantém. Rubem Alves dá uma boa pista: "Os alunos têm de ser levados adiante com alegria, e não só com espírito de competição".
Outra virtude do Santa Cruz, que Kanitz cita como fundamental, são suas instalações. "Escola, para mim, tem de ser espaçosa, bem estruturada, com uma boa biblioteca. Claro que sei que as mais caras é que são assim. Mas aqui em casa educação é prioridade número 1, que vale qualquer sacrifício."
Mas e quando a escola que fica mais perto de casa não é legal? "Aí é que a força da comunidade tem de valer. Pais, professores e alunos precisam se reunir para tentar melhorar a situação", diz Stephen Kanitz. Ele concorda que essa negociação torna-se mais fácil em escolas particulares. "Os pais são clientes, pagam e sustentam o colégio. Portanto têm direito de exigir." Nas escolas públicas, segundo ele, isso é bem mais complicado - a burocracia impede uma negociação mais direta com a direção da instituição e não há instrumentos de pressão como, por exemplo, deixar de pagar a mensalidade. "Mesmo assim, nada é impossível", diz Kanitz.
No Colégio Itzhok Leibush Peretz (ou apenas Peretz, como é conhecido entre a comunidade judaica de São Paulo), a associação de pais criou um corpo pedagógico para selecionar, reciclar e recapacitar professores. Hoje, são os próprios pais, mais de 100 associados, que vão atrás dos recursos para financiar os projetos que garantem a boa fama da escola.
Os alunos das escolas do mundo de hoje precisam de algo que poucas escolas oferecem: formação na área de valores humanos, como solidariedade, paz, harmonia, tolerância ou amor em família.
É o que pensa a psicóloga norte-americana Diane Tillmann, coordenadora do Programa Vivendo Valores na Educação, implantado em mais de 8 mil escolas em 74 países, inclusive o Brasil. Aqui, ela afirma que já formou 325 mil crianças.
Por isso, para Diane Tillmann, a escola mais indicada é aquela onde, além da excelência acadêmica, ensina-se a importância dos valores humanos universais. "Eu aconselharia os pais a escolherem escolas que possam nutrir o coração e a mente das crianças", diz Diane. "Escolas que estimulem os alunos a aprender a solucionar conflitos, ultrapassar suas dificuldades de comunicação, e que priorizem a cooperação e a gentileza como normas de conduta; que incentivem projetos criativos, que propiciem a reflexão, inspirem o hábito de avaliar prós e contras de uma situação e aprender a ver as causas da injustiça."
Outros dados indicam que os alunos estão cada vez mais com vontade de pôr a mão na massa e participar de ações voluntárias. Pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo com 1806 jovens de 15 a 24 anos, em nove municípios brasileiros, revela que 80% deles acreditam que poderiam fazer muito, ou pelo menos um pouco, pelo mundo. Melhor ainda, o estudo mostra que 22% já estão trabalhando para isso. De repente, estamos nos trilhos.
Linhas pedagógicas convencionais
Piaget (1896-1890) - Biólogo de formação, o psicólogo suíço Jean Piaget é o pai do construtivismo nas escolas. Observando crianças, teorizou sobre a maneira pela qual elas construíam seus conceitos, a partir de sua interação com o ambiente físico e social. A maioria das escolas particulares brasileiras é construtivista. www.piaget.com.br
Vygotsky (1896-1934) - Psicólogo russo e partidário das idéias de Karl Marx, deu um contexto social mais profundo à aprendizagem da criança. Por exemplo, percebeu que ela aprenderia mais facilmente a respeito de quantos tijolos eram necessários para a construção de uma determinada parede se essa parede fosse da casa dela. www.vygotsky.com.br
Montessori (1870-1952) - Indicada duas vezes para o prêmio Nobel da Paz, a italiana Maria Montessori observou que o aluno aprendia mais num ambiente agradável com pessoas acolhedoras. Sua linha pedagógica, adotada em muitas escolas maternais, procura desenvolver a autonomia da criança e a interação entre corpo, inteligência e vontade. www.montessori.com.br
Paulo Freire (1921-1997) - Pernambucano, teve notável influência sobre as políticas públicas na área de educação. Para ele, a aprendizagem era um ato político e a democracia, o esteio da escola. Dizia que, tanto quanto ler e escrever, o aluno, ajudado pelo professor, deveria aprender a "ler o mundo". www.paulofreire.org
Cesar Coll (1947) - Espanhol, catedrático de psicologia da educação no departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade de Barcelona, aplicou as idéias construtivistas de modo prático, dentro de políticas públicas, e criou uma verdadeira revolução no ensino, tanto na Espanha como no Brasil. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, liderou professores universitários brasileiros na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que hoje orientam o conteúdo da maioria de nossas escolas. www.cesarcoll.com.br
Rudolf Steiner (1861-1925) - Pensador austríaco e pesquisador das obras de Goethe, ele é o pai da antroposofia (leia mais na edição 3 de vida simples).
Criou uma linha pedagógica que respeita a criação dos três corpos sutis que, segundo ele, revestem o corpo físico e são formados durante a infância e a adolescência. As escolas dessa linha dão ênfase às artes e à espiritualidade. www.sab.org.br
Carlos Gonzáles Pecotche (Raumsol) (1901-1963) - Educador argentino, formulou, em 1930, uma linha pedagógica singular, em que o auto-conhecimento é peça fundamental. O objetivo da logosofia, segundo seu autor, é criar seres humanos mais conscientes e uma humanidade mais justa. Valores como ética e responsabilidade são bastante estimulados durante a aprendizagem. www.logosofia.com.br
Nathalie de Salzmann de Etievan (1910) - Nascida na Geórgia e educada na Suíça e na França, tem seu modelo pedagógico implantado em vários países da América Latina. Seguidora do mestre Georges I. Gurdjieff, propõe uma educação baseada na integração do corpo físico, da emoção e da vontade. www.horus.com.br
Krishnamurti (1895-1986) - Seus vários livros calam fundo no coração dos educadores. Revolucionário, propôs uma escola libertária, onde a preocupação maior é o florescimento do ser humano e não a acumulação do conhecimento. Suas escolas, na Índia e nos Estados Unidos, são implantadas em amplos jardins e os alunos estudam em volta de uma mesa redonda, em pé de igualdade com os professores. www.krishnamurti.com.br
Sathya Sai Baba (1935) - O mestre indiano, tido como santo, criou em seu país uma universidade, o Instituto de Altos Estudos Sathya Sai Baba, reconhecida como centro internacional de excelência. No Brasil, já existem 18 colégios que seguem sua orientação. A aprendizagem de valores universais, como o amor, a solidariedade e a compreensão, fazem parte do currículo. www.sathya.saibaba.com.br
1. Uma escola é uma escola, não um resort
Em geral, uma escola criativa é bagunçada, com roupas dependuradas para se usar em encenações, sucata para aula de artes, brinquedos feitos pelas crianças. Uma escola excessivamente limpa e ordenada pode revelar disciplna rígida.
2. Procure uma extensão da sua casa
Uma escola alternativa pode ser uma boa idéia se a cartilha na sua casa é a do consumo consciente, da atitude ecológica, participação e solidariedade. Não costuma dar certo quando os hábitos da família são muito diferentes.
3. Desmonte discursos prontos
Se ouvir que a escola "incentiva a autonomia", não hesite em perguntar: "Como?" "Em quais circunstâncias?" Peça exemplos, casos. Certifique-se de que o discurso não é vazio. Quebre o protocolo.
4. Crie cenários
Como a escola se posiciona e trabalha problemas como álcool e drogas? Vale também perguntar o que a escola oferece quando o aluno enfrenta dificuldades pedagógicas.
5. A escola do bairro pode ser legal
Muitas escolas pouco famosas pertencem a educadores competentes, sérios e criativos. E, se é perto, os colegas poderão visitar seus filhos freqüentemente e vice-versa. Cuidado com os rankings de "melhores".
6. Analise bem o currículo
Algumas escolas entopem a criança com muitas atividades. As das crianças pequenas, por exemplo, devem ter períodos (fora do recreio) em que a criança brinque livremente.
8. Fuja da instituição pai-pode-tudo 9. Consulte as bases
A escola não deve ser fábrica de pessoas para o mercado de trabalho. Vale investigar se estimula atividades que envolvam consciência, sensibilidade artística e espiritualidade.
Há uma escola em São Paulo com câmeras na sala de aula, para que os pais possam monitorar seus filhos no computador. Isto é, a escola é encarada como empresa e os pais como clientes que devem ter os caprichos atendidos.
Escute o que seu filho tem a dizer e leve muito em consideração antes de se decidir por uma escola. Afinal, é ele quem vai estudar lá.
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição