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De poucas palavras, hábitos simples e vida rústica, Ignácio Campos Meirelles era a alma de Campo Formoso, cidade do sertão de Goiás. Único ferreiro do lugar lá pelos idos da década de 40, Ignácio tinha mãos de fada: do seu trabalho com ferro e forja saíam minúsculos canivetes de 5 centímetros, garruchas com cabo de madrepérola que cabiam na palma da mão até delicadas peças de máquinas de costura que só poderiam ser compradas a 1000 quilômetros de distância. Para sua neta, uma menina de 6 anos, ele era um rei, e sua serralheria, um reino encantado. Junto com o avô, ela aprendeu a manejar a forja, fundir metais e moldar elos para fazer pulseirinhas ou correntes de prata. Porém, mais do que tudo, a menina recebeu dele valores fundamentais. Por exemplo, que não havia distinção entre a habilidade de um homem ou de uma mulher: o avô a ensinava como se um dia ela pudesse vir a ser um habilidoso ferreiro, não importando se ela usasse saias ou não. Com ele, a garota também aprendeu a ter coragem de enfrentar desafios: acompanhando os passos largos de Ignácio em suas andanças, era obrigada a atravessar pontilhões de estrada de ferro e olhar com coragem para o espaço vazio que ficava abaixo dos seus pés entre os dormentes. E, diga-se de passagem, seu avô não era homem de olhar para trás para ver se a menina o seguia ou não. “Ele só dizia o que devia ser feito, como devia ser feito e pronto. O resto era comigo”, ainda se lembra sua neta Nilza Campos, que hoje, aos 72 anos, não titubeia na hora de subir na escada e usar a furadeira para colocar cortinas ou instalar ela própria o chuveiro. Ela reconhece o avô Ignácio como um grande professor, o homem que lhe ensinou a olhar obstáculos da existência com confiança e galhardia.
E nós? Será que sabemos identificar as lições dos grandes mestres em nossas vidas? E será que sabemos reconhecer um verdadeiro mestre?
Reconhecer o que aprendemos de bom, e com quem, é um dos grandes prazeres da vida. Se pensarmos bem vamos descobrir grandes mestres em pessoas inesperadas. Mesmo porque um bom mestre ensina de forma indireta, por meio de tarefas ou propostas prosaicas, que aparentemente não têm nada de espiritual e profundo. Lembra o Karatê Kid e o senhor Myagi? A primeira tarefa que o mestre de karatê pediu ao garoto quando o aceitou como seu discípulo foi lixar o assoalho. Nada de golpes, gritos, grandes performances. No segundo dia, sua missão foi encerar o carro. No terceiro, pintar a cerca. No quarto, refazer a pintura de toda a casa. Além de treinar o punho e, depois, o equilíbrio, o mestre o estava ensinando a ter paciência, perseverança e... obediência. Na tradição oriental, a confiança cega no mestre é condição básica para um aprendiz.
Além disso, como um bom mestre, o senhor Myagi parecia se divertir secretamente com sua missão de instruir. Quer ver um exemplo? Ao ver seu instrutor quebrar o gargalo de três garrafas de cerveja com um único golpe, o discípulo Daniel-San pergunta, ansioso, como todo bom aprendiz: “Como fez isso?!? Como fez isso?!?” A resposta de Myagi, fingindo surpresa: “Não sei. Primeira vez”.
Esse senso de humor secreto mesclado de sabedoria também deve ter inspirado Marpa, o grande mestre de Milarepa, que depois viria a ser venerado como santo no Tibete. Milarepa era da pá virada: ladrão, jogador, praticante de magia negra e assassino. Até que um dia ele reconheceu que essa história não tinha muito futuro e resolveu colocar-se sob as ordens de um grande mestre, Marpa, para poder se regenerar e virar um monge budista. E o que fez Marpa? Por acaso mandou que ele raspasse a cabeça e cantasse mantras? De jeito nenhum. Ele preferiu ordenar que Milarepa construísse e destruísse o mesmo muro dezenas de vezes. Mandava o discípulo carregar pedras e mais pedras para erguer o muro. Logo depois de pronto, mandava destruí-lo porque, por exemplo, havia decidido erguê-lo em outro lugar mais auspicioso. Ou, então, dizia a Milarepa que ele havia entendido mal e que, absolutamente, nunca havia mandado destruir nada. Ou, ainda, que o aprendiz havia sonhado com tal ordem estapafúrdia... e o mandava construir o muro de novo. Claro, o malfeitor tentou trapa-cear como era do seu costume, mas isso só estimulou Marpa a ser cada vez mais duro com ele. Quando viu que não tinha alternativa, Milarepa resolveu obedecer. Um dia, quando já estava próximo da exaustão, desistiu de seu intento: sentiu-se incapaz de mudar de vida e ser digno de receber os ensinamentos de Buda. O velho mestre sabia que o grande aprendizado de Milarepa era justamente esse: ceder e deixar de manipular as situações da vida para conseguir tudo o que queria. Os muros só foram uma maneira para quebrar essa obstinação arrogante. Ao desistir e assumir sua derrota, o outrora fanfarrão Milarepa tinha conseguido, sem saber, atingir sua verdadeira meta, que era mudar. Só aí, sabendo que seu discípulo tinha entregado os pontos e admitido seu fracasso, é que Marpa resolveu finalmente sentar-se a seu lado e, com toda a compaixão deste mundo, ensinar o dharma, o conjunto dos preceitos budistas.
Nesses casos, a relação mestre-discípulo é de total confiança. Mas será que nós, vivendo num mundo de tantos falsos profetas e lobos com pele de cordeiro, podemos entregar tão facilmente o coração? É o que a gente vai ver a seguir.
O que é um mestre? Há vários níveis e gradações, e é útil aprender a identificá-los. É mestre quem domina uma determinada técnica, arte ou método com muita habilidade. Nesse caso, são mestres os instrutores, isto é, todos aqueles que nos ensinam algo que vai ser importante em nossa vida, seja uma habilidade específica, seja a assimilação de um valor relevante. Esses são mestres parciais, de alcance limitado, mas fundamentais para nossa formação e existência prática. Nesse caso, pode ser mestre um pai, uma mãe, um padrinho, um professor. Como o avô da pequena Nilza, o mestre parcial vai nos ensinar a superar um bloqueio, a nos especializarmos em alguma coisa ou vai nos estimular a uma nova atitude diante da vida.
Para mim, um deles certamente foi o filósofo checo Vilém Flusser. Durante a Segunda Guerra, ele jogou tudo para o alto e aceitou o convite para ensinar numa faculdade brasileira. Flusser adorava brincar com nossa capacidade de pensar. Seu passatempo predileto era reunir os alunos, muitas vezes fora do horário acadêmico, e montar as teorias dos grandes filósofos e pensadores atuais, para depois puxar o tapete e derrubar toda aquela estrutura mental com uma única pergunta. Ele fazia isso com tal prazer que aprendi a ter essa liberdade prazerosa com relação ao meu próprio pensamento.
Porém, um grande mestre vai muito além disso: ele nos desperta para o real significado da vida. Isto é, nos ensina a ter mais consciência de nós mesmos e do mundo à nossa volta. Nas mãos dos grandes mestres, tarefas e desafios, então, só têm um objetivo: mostrar quem realmente somos. Não é mais aprender como pensar, ultrapassar uma dificuldade emocional ou aprender uma habilidade. É um novo caminho na direção do ser.
Um mestre de grande porte jamais vai nos abrir os olhos, às vezes de maneira bem dolorosa, sobre como se manifesta nosso ego e como nossa verdadeira essência pode estar longe das ações inspiradas por ele. O problema é que muitos desses gigantes espirituais já morreram, e os grupos que ainda propagam suas idéias e métodos nem sempre o fazem de maneira correta. E isso é realmente um perigo. Os aprendizes que depois se tornam mestres muitas vezes não chegam ao mesmo nível de quem os ensinou. Pior: mesmo mantendo o discurso, podem agir de maneira completamente contrária ao que aprenderam. Ou simplesmente não têm a mesma maestria para avaliar o que um discípulo mais precisa, como Marpa sabia com relação a Milarepa. Por isso, atenção. Um verdadeiro mestre saberá adequar suas proposições e tarefas de acordo com nossas capacidades, considerando a época em que vivemos e nossas condições específicas.
Como hoje essa qualidade é rara, temos de aprimorar nosso próprio parâmetro interno.“É preciso encontrar o caminho do meio: nem a devoção cega, nem a condenação cega, nem a ironia”, diz Jean-Yves Leloup, teólogo e padre da Igreja Ortodoxa que andou por várias seitas e religiões para saber como elas funcionam. Nessa entrega a um mestre, o discernimento, a fé questionadora, que não nos dispensa de pensar por nós mesmos, costuma ser de inestimável ajuda. “A maior força de todos os inquisidores está na nossa abdicação. Nas seitas, assim como em outros locais, é essa aliança mórbida entre o carrasco e a vítima que se trata de denunciar.”
Há um tipo de mestre que não sabe que ele próprio está ensinando. Nós é que aprendemos com ele, com suas ações e reações, e, principalmente, com a relação que mantém conosco. “São os mestres negativos. Eles nos forçam, por sua maneira de ser, a mudarmos nossa atitude. Não é com carinho: muitas vezes essas mudanças podem acontecer debaixo de raiva, mágoa e revolta de nossa parte. Porém, eles praticamente nos obrigam a nos transformar”, diz a psicóloga Maria Cândida Amaral. A Cinderela é um exemplo. Criada na cozinha, entre o fogão e as cinzas, ela vivia debaixo do poder despótico de sua madrasta e suas filhas. Sofreu durante anos e anos a diferença de tratamento e a injustiça. Mas aí aconteceu a festa no castelo do príncipe. Mesmo julgando-se a última das criaturas, Cinderela se animou. Se todos foram convidados para participar, por que ela não? Era o começo de sua transformação: Cinderela estava começando a se ver como gente. E, quando isso acontece, parece que o universo dos contos de fada conspira a favor. Fadas-madrinhas chegam para ajudar, coincidências favoráveis começam a acontecer. E Cinderela enfrenta sua mestra negativa: arruma-se todinha, ganha uma carruagem em forma de abóbora e vai ao baile. Interessante notar que ela teve de romper com seu núcleo familiar para se afirmar, mesmo saindo escondida. Todo o resto da história é conseqüência desse gesto poderoso da afirmação do ser. Se não tivesse madrasta pressionando, Cinderela jamais lutaria por si mesma e se transformaria.
Portanto, é possível eleger sua estrela-guia, pois a vida é plena delas. Tome cuidado, esteja aberto, mas não se esqueça de si mesmo. Como diz Leloup, ao lado das três questões fundamentais (quem sou, de onde venho, para onde vou) a gente sempre tem de se lembrar da quarta, que é quem vai lavar a louça hoje.
Em outras palavras, seria aconselhável que os grandes ensinamentos passassem para nossa vida prática. “Seja a louça, a roupa - pouco importa a imagem -, a questão é saber o que fazemos de todos os grandes princípios recebidos em uma seita, uma igreja, uma religião. O que fazemos com eles em nossa vida cotidiana?”
Livro:
Seitas, Igrejas e Religiões, Jean-Yves Leloup, Verus
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