Quem, nos idos da infância, nunca se escondeu num cantinho da casa para fazer arte? Quando a vigília dos adultos dava trégua, era hora de botar os planos mirabolantes em ação como rabiscar a parede, picotar a blusa nova da irmã ou coisa do tipo. Parece que, desde pequenos, temos a necessidade de encontrar um espaço em nosso lar em que possamos nos isolar do mundo, por instantes que seja, para fazer nossas atividades sossegados, sem o julgamento alheio, o perigo de ser pego de surpresa, de levar bronca ou passar vergonha. E o quintal é justamente esse cantinho. Um espaço velado, não acessível ao olhar dos outros. Um refúgio.
O quintal é o lugar do hobby do fim de semana, do executivo que troca a calculadora financeira pela palheta de tintas. É o espaço para o plano B, para o pequeno negócio de fundo de quintal, como já diz a expressão. Lugar de planejar o futuro e guardar o passado. Muitas vezes, é no quintal que está o quarto da bagunça, onde se depositam as tranqueiras e velharias, como aquela bicicleta antiga ou a velha cama. Nesse espaço múltiplo, o varal com calcinhas e cuecas penduradas se ajeita logo acima das floreiras, com suas cristas-de-galo, margaridas e tomates, sem falar na pequena horta de ervas e especiarias.
Mas a maior delícia do quintal é que, ao mesmo tempo que está escondido da rua, ele é um espaço a céu aberto, um ponto de contato com o exterior, com o sol, a chuva, o vento e toda a poesia das estrelas. O quintal é um limiar entre o interior e o exterior. Como escreveu o antropólogo Roberto DaMatta no livro A Casa e a Rua, assim como as janelas e varandas, o quintal é um espaço arruado da casa. Você está dentro, mas também está fora da morada. É o paraíso da brincadeira para as crianças. Que beleza é tomar banho em piscina de armar e fazer guerra de lama. Os mais privilegiados se arriscam a subir nas árvores, brincar com a terra, andar descalço na grama e comer fruta no pé, tal qual antigamente.
Área de serviço
Ensina o dicionário que a palavra quintal quer dizer pequena quinta, ou terreno, geralmente com jardim ou horta, atrás da casa. O quintal existe desde o primeiro período da arquitetura brasileira, no ciclo do açúcar, quando servia para a complementação alimentar, diz o historiador de arquitetura Güinter Weimer. Os limites entre a horta e o pomar se confundiam com o espaço para criar os animais e para lavar e quarar a roupa. No quintal rural, plantava-se mandioca para fazer farinha e cana-de-acúcar para a garapa, o melado, a rapadura. Sob um telheiro, havia um fogão usado para os cozimentos demorados ou que davam mau cheiro. Aquele espaço era chamado de cozinha suja. Ali se derretia o toucinho para fazer óleo de cozinha, usava-se o coco, as cinzas do fogão ou gordura animal para fabricar sabão. Dizia-se que da vaca só não se aproveitava o berro, conta o historiador da arquitetura Carlos Lemos, autor de Cozinhas etc. No quintal, também havia construções rústicas para guardar a colheita e o material agrícola ou para servir de dependência para os escravos e, mais tarde, para os empregados é daí que vem a atual edícula.
Nas cidades, os quintais vão reproduzir essa ordem, porém em menor escala. Durante o período colonial, as casas ocupavam toda a parte frontal dos lotes, sem recuo em relação à rua ou recuo lateral, deixando uma grande área livre ao fundo. Se nela não havia cana nem mandioca, seguia-se com a cozinha suja, a lavação de roupa, o galinheiro e a casinha. Não faltavam no pomar as árvores de espinho, como se dizia dos pés de laranja, limão e cidra, além de frondosas mangueiras e cajueiros, para atenuar o calor escaldante. O quintal era um prolongamento da vida cotidiana doméstica. O lugar das intimidades sujas da casa, da lama que se formava na terra batida, da inhaca do galinheiro, do calor do fogão, da água encardida que escorria dos lençóis. O espaço era protegido não só da vista da rua e das visitas como dos próprios habitantes da moradia, devido a suas funções, digamos, mais orgânicas.
É quando a casa recua no lote, com as medidas higienistas das vésperas da república, que surgem os corredores laterais, usados para passar as carruagens, e mais tarde os carros, para o fundo do quintal, e os jardins de frente, que logo ganharam ar afrancesado, afinal ninguém queria fazer feio diante do público. Com o tempo, as hortas e pomares se escasseiam, as roupas já não são mais quaradas ao sol e a garagem vai para a frente da casa. E aí o quintal renasce como um espaço para o lazer e para reunir pessoas.
Festa, batuque e samba
Alvorada em Oswaldo Cruz, periferia do Rio de Janeiro. No quintal da tia Surica, ao longo do dia, lavou-se a roupa, serviu-se almoço, os meninos jogaram bola e agora canta-se o samba. A trajetória da Velha Guarda da Portela é marcada pelos encontros nos quintais dos bambas, como tia Surica. E confunde-se com a trajetória do próprio samba, que nasceu assim, meio desavisado de que não seria tão bem visto por aí, e acabou encontrando nos quintais seu porto seguro. Mas essa história toda começa antes mesmo do começo do samba e, quem diria, lá na roça. Acompanhe.
Já ouviu falar em namoro de terreiro? É daqueles que começam com bitoquinhas no quintal, durante as festas de São João. Pois sim, no meio rural até há pouco tempo as festas juninas rodavam soltas nos grandes quintais. Na falta de clubes e discotecas, eram os terreiros espaços planos de terra batida (mais tarde de cimento), usados para secar os grãos, como o feijão e o café, em meio ao quintal o palco para a quadrilha e a fogueira. Eram os terreiros, aliás, o palco para toda sorte de baile e comemoração, religiosa ou não. O candomblé surge no início do século 19 e vai fazer suas festas no terreiro, o que é um costume antigo que descende do catolicismo tradicional. Primeiro celebra-se o ritual religioso, depois continua-se com a festa, o profano, no lugar do sagrado, diz o sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Reginaldo Prandi.
As religiões afro-brasileiras ficaram tão associadas ao terreiro que lhe tomaram emprestado o nome para batizar seus templos. O batuque que sacudia o terreiro após os ritos religiosos é que vai dar origem ao samba, já no Rio de Janeiro. Seus nomes mais expressivos, como Pixinguinha e Donga, eram afilhados de velhas mães-de-santo. E como o batuque era perseguido, dito coisa marginal, tudo era feito escondido no quintal, às vezes com um chorinho na sala para enganar o chefe da polícia. Mas não teve autoridade capaz de esmorecer a força do samba, que até hoje dá o ar da graça em fundo de quintal, com feijoada, tira-gosto, cachacinha e até um uisquezinho, faz questão de frisar Ubirajara, o Bira Presidente, do grupo de pagode Fundo de Quintal, que freqüenta os terreiros dos bambas desde menino.
Área de estar
Essa história de quintal como espaço de convivência vai longe. Quando cheguei à casa da artista plástica Juliana Chagas, no bairro do Butantã, em São Paulo, fomos direto para o quintal. Nós nos acomodamos numa mesa enquanto desfrutávamos um suco feito com acerolas colhidas ali. Quando Juliana e sua mãe, Léa, me contaram que quase não usavam a sala de visitas, eu já sabia do que estavam falando. A vida da casa é toda voltada para o quintal, disse Juliana. Nas mesas na área externa, a família faz todas as suas refeições, olhando para a copa das árvores, algumas centenárias. Aos sábados, o almoço é aquecido nas panelas de pedra sobre o fogão a lenha, num espaço fechado do lado de fora da morada. E da missa isso não é nem a metade. O quintal da família Chagas tem cachorro, tartaruga, jabuti e, acredite, galinha carijó, caipira, galinha de pescoço pelado e garnisé. Uma placa de madeira indica o cantinho do mineiro: é a churrasqueira do pai de Juliana, que adora assar uma carne para reunir os amigos.
Mas um outro tipo de sociabilidade se esconde por trás dos muros dos quintais (em especial dos muros baixos que, de certo, estão cada vez mais min guados): o tête-à-tête entre os vizinhos. As pessoas conversam, trocam receitas e favores. Dona Benedita era costureira na São Paulo dos anos 60 e, toda vez que precisava entregar encomenda, deixava seus filhos aos cuidados da vizinha, dona Miquelina. Sem sair de seu quintal, ela vigiava as crianças do outro lado da cerca de arame farpado que dividia os terrenos. Depois foi construído um muro. Aí ela colocava um banquinho e, volta e meia, subia e ficava olhando a gente, conta Helcias Bernardo de Pádua, filho da falecida dona Benedita. E para brincar com as crianças vizinhas? Era só pular de um quintal a outro, por cima dos muros. Você não avisava nunca que ia à casa de alguém, aparecia, lembra a paulistana Anna Boni de um costume remoto para os habitantes das grandes cidades.
Pois o quintal é assim, muda ao longo da história da sociedade, mas também com a história de quem vive no lar. No lugar do balanço de madeira da infância, pode aparecer uma espreguiçadeira para tomar sol na adolescência. O quarto de brinquedos que ocupava a edícula pode dar espaço para um novo inquilino (como aquele filho desgarrado que não se desgarrou o suficiente para ir mais longe do que o quintal dos pais) ou mesmo virar um escritório, como o da artista plástica Sara Carone, de São Paulo, que montou seu ateliê no quintal para acompanhar de perto o crescimento de seus três filhos. Era um jeito de estar próxima e, ao mesmo tempo, poder me isolar, me concentrar, diz. E assim o quintal continua sua saga como o curinga da casa, sem nunca perder aquele jeitinho sabe de quê? de lugar para fazer arte.
Para saber mais
Livros:
Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre, José Olympio
Cozinhas etc., Carlos Lemos, Perspectiva
A Casa e a Rua Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil, Roberto DaMatta, Rocco
Quadro da Arquitetura no Brasil, Nestor Goulart Reis Filho, Perspectiva